← Arquivo

Nº 20407 de junho de 202359:27efeméride

Josef Mengele, o Anjo da Morte de Auschwitz

O episódio aborda Josef Mengele, o 'Anjo da Morte' de Auschwitz, que assumiu funções no campo em 1943 e realizou experiências brutais com prisioneiros, especialmente gémeos, em nome da ciência racial nazi. Mengele conseguiu fugir para a América do Sul e morreu impune no Brasil em 1979. Na segunda parte, analisa-se o Cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII, e o seu papel na construção do Estado francês no século XVII através da centralização do poder, combate à nobreza e guerras contra os Habsburgos.

Ideias principais

  1. Mengele representa a prostituição da ciência ao serviço da ideologia nazi, mostrando como a barbárie pode vir da alta cultura e não apenas do primitivismo, desafiando a associação comum entre brutalidade e ignorância.
  2. A fuga de criminosos nazis como Mengele e Eichmann não resultou de organizações secretas como a Odessa, mas do caos dos movimentos populacionais no pós-guerra europeu, onde milhões de refugiados facilitaram a camuflagem.
  3. O eugenismo e a ciência racial não eram exclusivos dos nazis, existindo programas de esterilização em democracias como a Suécia até aos anos 60-70, revelando a disseminação destas ideias 'científicas' em várias ideologias.
  4. Richelieu, apesar da reputação como construtor do Estado francês, trabalhava essencialmente para a sua própria grandeza e poder, e a França que deixou em 1642 ainda não era a potência consolidada que a historiografia nacionalista do século XIX lhe atribuiu.
  5. A mistura de funções religiosas e políticas em Richelieu, incluindo comandar exércitos como cardeal, reflecte uma época sem separação clara entre Igreja e Estado, onde bispos eram frequentemente filhos de aristocratas colocados em carreiras eclesiásticas por razões familiares e não vocacionais.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* aborda dois temas distintos: a figura de Josef Mengele, o tristemente célebre "Anjo da Morte" de Auschwitz, e o Cardeal de Richelieu, principal ministro do rei Luís XIII de França. A escolha de Mengele é motivada por uma efeméride: a 30 de maio de 1943, há oitenta anos, o médico alemão assumia funções no campo de extermínio de Birkenau.

Rui Ramos começa por sublinhar o que torna Mengele desconcertante para a memória histórica: ao contrário do que se imagina quando se pensa no nazismo, não estamos perante um homem primitivo ou inculto, mas sim diante de um jovem médico doutorado, apaixonado pela música e pelas artes, formado na tradição da biologia hereditária e da higiene racial. Mengele aderiu ao movimento nazi ainda nos anos 30, convicto de que a ciência das raças — o eugenismo — era uma disciplina tão legítima quanto a física ou a química. Este movimento de ideias, salienta Ramos, não era exclusivo da Alemanha: programas de esterilização forçada vigoraram em países como a Suécia até à década de 1970, e a mesma lógica de intervenção científica sobre a humanidade estava presente no marxismo-leninismo soviético, que tratava as classes sociais como categorias a eliminar. Em Auschwitz-Birkenau, Mengele desempenhava três funções: supervisionava os prisioneiros utilizados como mão de obra, participava na seleção dos deportados à chegada — decidindo quem ia para as câmaras de gás e quem ia para as fábricas —, e realizava experiências com seres humanos, em especial gémeos, financiadas por uma bolsa de uma fundação científica alemã. O seu orientador de doutoramento viria a retomar uma carreira académica respeitável na Alemanha do pós-guerra, o que ilustra a continuidade perturbadora de certas redes científicas.

A impunidade de Mengele é outro dos eixos do episódio. No caos do final da Segunda Guerra Mundial, a Europa era um vasto campo de refugiados, e mergulhar nessa vaga humana não era difícil. Mengele fugiu pela rota da Áustria para Itália, obteve um passaporte da Cruz Vermelha Internacional com identidade falsa e embarcou para a Argentina em 1949, passando depois pelo Paraguai e terminando no Brasil, onde morreu de ataque cardíaco durante um banho de mar, em 1979. Ao contrário de Adolf Eichmann — capturado pelo Mossad em 1960 na Argentina —, Mengele nunca foi apanhado. Os apresentadores explicam a diferença: Eichmann era orgulhoso e vaidoso, fez gravações comprometedoras e frequentou círculos de simpatizantes nazis que o expuseram; Mengele, pelo contrário, terá renunciado às suas ambições científicas e vivido em obscuridade deliberada, trabalhando inclusivamente numa empresa agrícola da própria família. Os seus restos mortais só foram identificados em 1985, seis anos após a morte.

A segunda parte do episódio é dedicada ao Cardeal de Richelieu, a pedido de um ouvinte. Ramos começa por desconstruir a imagem romanesca criada por Alexandre Dumas em *Os Três Mosqueteiros* — onde Richelieu surge como o vilão maquiavélico que manipula a corte — para apresentar o contexto histórico real. Richelieu não era, por vocação, um homem da Igreja: proveniente de uma família aristocrática de serviço régio, tornou-se bispo de Luçon aos 21 anos por razões financeiras, e ascendeu a principal ministro de Luís XIII através de uma hábil mediação entre o rei e a sua mãe, a regente Maria de Médicis. As suas quatro grandes preocupações eram: submeter a alta nobreza ao poder régio, mandando destruir os castelos fortificados que não serviam a defesa do reino; contrariar o cerco da França pelos Habsburgos, o que o levou a apoiar os protestantes alemães na Guerra dos Trinta Anos, mesmo combatendo os protestantes dentro de França; gerir a relação permanentemente instável com o próprio Luís XIII, para o qual mantinha uma vasta rede de informadores; e enriquecer-se a si próprio e à sua família, acumulando uma fortuna colossal, coleções de arte e uma das maiores bibliotecas da Europa.

Ramos conclui com uma reflexão crítica sobre a reputação de Richelieu como "pai do Estado francês". Historiadores do século XIX viram nele o arquitecto da grandeza francesa, mas John Elliott, comparando-o com o seu rival espanhol, o Conde-Duque de Olivares, sugere uma leitura mais matizada: quando morreu em 1642, a França que Richelieu deixou estava longe de consolidada, e a revolta da Fronda, nos anos seguintes, mostrou a fragilidade do seu legado. Luís XIV, ao abolir a posição de principal ministro e proclamar que "o Estado sou eu", rejeitou implicitamente o modelo de Richelieu. No fundo, sugerem os apresentadores, a visão de Dumas — a de um homem obcecado com o seu próprio poder e prestígio — pode não estar assim tão longe da realidade histórica.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • século XIX
  • século XVII
  • anos 30
  • anos 60
  • anos 70
  • Guerra Fria
  • pós-guerra
  • Estado Novo francês

Temas

  • nazismo
  • eugenia
  • racismo científico
  • campos de concentração
  • crimes contra a humanidade
  • solução final
  • diplomacia
  • guerra
  • absolutismo
  • construção do Estado
  • fiscalidade
  • nobreza
  • religião e política
  • protestantismo
  • catolicismo

Eventos

  • Holocausto
  • Julgamentos de Nuremberg
  • Guerra dos Trinta Anos
  • Restauração Portuguesa de 1640
  • Cerco de La Rochelle
  • Fronda
  • Concílio de Trento

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra dos Trinta Anos
  • Guerras de Religião em França

Livros citados

Episódios relacionados