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Nº 19001 de março de 20231h05efeméride

Estaline morreu há 70 anos. Esta é a sua história

Análise dos 70 anos da morte de Stalin (5 de março de 1953), explorando os 25 anos do seu poder absoluto, a transformação radical da sociedade soviética através da coletivização forçada, purgas sangrentas e terror sistemático, e as circunstâncias da sua morte e sucessão. O episódio discute a singularidade do totalitarismo stalinista face aos regimes czaristas, o papel de Beria como possível reformador após Stalin, e as razões pelas quais a União Soviética não conseguiu liberalizar-se sem colapsar.

Ideias principais

  1. Stalin representa uma descontinuidade radical com os czares russos, destruindo todos os corpos sociais intermédios (Igreja, nobreza, comunidades locais) que tradicionalmente limitavam o poder autocrático na Rússia.
  2. A coletivização forçada dos campos (1928-1933) causou 5-7 milhões de mortos por fome, especialmente na Ucrânia, e não aumentou a produção agrícola, servindo apenas para destruir a autonomia camponesa e restaurar uma forma de servidão.
  3. As purgas de Stalin eram tão sistemáticas que em 1938 apenas 1% dos 659 mil oficiais do exército soviético tinha mais de 45 anos, e metade nunca tinha completado formação militar, tendo os antecessores sido executados.
  4. Lavrentiy Beria, o chefe da polícia política e grande torcionário de Stalin, propôs logo após a morte do ditador uma série de reformas liberalizantes (libertação de metade dos presos dos gulags, autonomia das nacionalidades, reconciliação com o Ocidente), mas foi executado em junho de 1953 pelos outros stalinistas.
  5. A União Soviética pós-Stalin manteve as características fundamentais do sistema (economia planificada, império, desconfiança do Ocidente) porque qualquer liberalização arriscava o colapso do regime, como ficou evidente nas revoltas de 1953-1956 e depois com Gorbachev nos anos 80.
  6. A industrialização soviética dos anos 30, apresentada como triunfo socialista, foi na realidade financiada por investimento e tecnologia americanos, aproveitando a Grande Depressão, e a Guerra Fria privou a URSS desses recursos essenciais.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado a Josef Estaline, por ocasião do septuagésimo aniversário da sua morte, ocorrida a 5 de março de 1953. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se responder a um conjunto de perguntas essenciais: quem era Estaline nesse momento, em que estado se encontrava o regime soviético, como morreu o ditador, como foi recebida a sua morte e que legado e sucessão deixou.

O ponto de partida é a singularidade histórica do regime estalinista. Rui Ramos sublinha que a comparação habitual entre Estaline e os czares russos — defendida por alguns e criticada por Soljenitsine — é profundamente enganosa. A velha Rússia imperial, por mais autocrática que fosse, era atravessada por contrapoderes reais: a Igreja Ortodoxa, a nobreza, a intelligentsia e as comunidades camponesas locais. O que Estaline fez — seguindo e radicalizando Lenin — foi destruir sistematicamente esses corpos sociais. A coletivização agrícola entre 1928 e 1933, que provocou cinco a sete milhões de mortes por fome, sobretudo na Ucrânia (o Holodomor), não foi apenas uma catástrofe humanitária; foi o instrumento pelo qual o Estado pulverizou as comunidades rurais e reinstaurou, na prática, uma forma de servidão que os próprios czares tinham abolido em 1861. Em segundo lugar, Estaline submeteu o Partido Comunista a purgas regulares e sangrentas, culminando nos grandes processos de Moscovo de 1937-38, nos quais antigos dirigentes bolcheviques foram forçados, mediante tortura, a confessar absurdos como serem espiões americanos. O efeito foi a atomização permanente da elite dirigente: entre 1934 e 1953, cerca de 800 mil pessoas foram executadas, e o corpo de oficiais do exército foi tão devastado que em 1941, às vésperas da invasão alemã, apenas um por cento dos oficiais soviéticos tinha mais de 45 anos. Em terceiro lugar, Estaline justificou todo este terror como defesa do Estado socialista contra inimigos externos e os seus agentes internos, ao mesmo tempo que perseguia uma política de expansão imperial — colaborando com Hitler na partilha da Polónia em 1939, anexando os países bálticos e partes da Roménia e da Finlândia, e depois, a partir de 1945, impondo ditaduras comunistas à Europa de Leste.

Em 1953, o império estalinista estendia-se por um sexto da superfície terrestre, incluía a China de Mao Tsé-Tung e exercia enorme influência nos partidos comunistas ocidentais, como os da França e da Itália. Mas era também um sistema profundamente disfuncional: 2,5 milhões de pessoas estavam nos campos de concentração, 2,7 milhões encontravam-se em deportação interna, e a economia planificada produzia com enorme desperdício e baixa qualidade. A morte do ditador foi, ela própria, um retrato do regime: Estaline sofreu um AVC na madrugada de 1 de março, mas ninguém se atreveu a entrar nos seus aposentos sem autorização nem a chamar médicos sem primeiro consultar os outros dirigentes, que temiam represálias caso ele recuperasse. Permaneceu no chão, sem assistência, durante quase vinte horas.

A luta pela sucessão foi imediata e reveladora. Lavrenti Béria, chefe da polícia política e homem da bomba atómica soviética, emergiu como figura dominante e surpreendeu ao propor, nos dias seguintes à morte de Estaline, uma série de rupturas radicais: a libertação de metade dos prisioneiros dos campos, o reconhecimento das identidades nacionais das minorias soviéticas, uma reconciliação com o Ocidente para acabar com a Guerra Fria, e até uma possível abertura a um sector privado na economia. Estas propostas — por mais paradoxal que seja virem do grande carrasco do regime — eram coerentes com a percepção, partilhada por alguns dirigentes, de que o sistema simplesmente não funcionava sem o terror permanente de Estaline no centro. Béria foi, ainda assim, eliminado em junho de 1953, com o apoio de Khrushchev e do general Zhukov, e executado em dezembro desse ano. Khrushchev, que em 1956 denunciaria publicamente os crimes de Estaline no XX Congresso do Partido, manteve as estruturas essenciais do regime — o Partido único, a economia planificada, o império colonial —, apenas abdicando das purgas mortais. As mesmas questões de fundo que Béria levantara em 1953 só voltariam a ser colocadas com Gorbachev em 1985, conduzindo então ao colapso do sistema. A conclusão dos apresentadores é clara: sem o terror sistemático e a presença de Estaline como árbitro supremo e permanente, o sistema soviético não era sustentável — o que torna a sua morte, potencialmente, também o princípio do fim da União Soviética, embora esse fim só se concretizasse quase quatro décadas depois.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XX
  • anos 1920
  • anos 1930
  • anos 1940
  • anos 1950
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Império Russo
  • século XVI
  • século XIX

Temas

  • ditadura
  • comunismo
  • totalitarismo
  • terror político
  • purgas
  • campos de concentração
  • coletivização
  • industrialização
  • império
  • repressão
  • fome
  • guerra
  • sucessão política
  • ideologia
  • economia planificada
  • revolução

Eventos

  • Morte de Stalin
  • Revolução Russa de 1917
  • Coletivização dos campos (1928-1933)
  • Holodomor
  • Grandes Processos de Moscovo (1937-38)
  • Pacto Molotov-Ribbentrop
  • Invasão alemã da União Soviética (1941)
  • 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956)
  • Revolta de Berlim-Leste (1953)
  • Revolta da Hungria (1956)

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra da Coreia

Livros citados

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