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Nº 5422 de julho de 202039:03análise histórica

Afinal, o que é que foram os gulags?

Episódio dedicado à história do sistema Gulag soviético, despoletado pela polémica em torno da nomeação de Rita Rato para directora do Museu do Aljube. Rui Ramos explica que os campos de concentração nasceram com a Revolução de 1917 (não com Stalin), funcionaram como reserva de trabalho escravo e afectaram pelo menos 25 milhões de pessoas entre 1930-1953. Termina com uma análise crítica da instrumentalização da memória da oposição ao Estado Novo pelo Partido Comunista.

Ideias principais

  1. O Gulag não foi uma deformação stalinista mas parte essencial do sistema soviético desde Lénine, com o primeiro decreto de 1919 e 84 complexos de campos já em 1921.
  2. Entre 1930 e 1953 pelo menos 25 milhões de pessoas passaram pelos campos (14% da população soviética de 1939), com cerca de 2 milhões de mortos registados, sendo o trabalho forçado fundamental para a economia soviética.
  3. Os campos não eram primariamente para opositores políticos activos mas para suspeitos e indesejáveis: qualquer pessoa podia ser presa arbitrariamente por pertencer a uma classe social, etnia ou profissão considerada inimiga.
  4. A publicação do Arquipélago de Gulag em 1974 foi um acto de coragem extraordinária de Solzhenitsyn, precipitada pela tortura e suicídio de uma amiga que guardava o manuscrito, tornando o termo Gulag conhecido no Ocidente.
  5. A nomeação de uma militante comunista para o Museu do Aljube representa o risco de falsificação histórica, pois o PCP não foi a única nem a principal oposição ao Estado Novo, que incluiu republicanos, monárquicos, católicos, anarquistas e a extrema-esquerda maoísta.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma polémica pública — a nomeação de uma ex-deputada comunista para a direcção do Museu do Aljube, que declarara nunca ter lido nem estudado nada sobre os gulags — para explicar o que foram efectivamente esses campos de trabalho forçado soviéticos, quando surgiram e que dimensão atingiram.

Rui Ramos começa por esclarecer que o termo "gulag" é um acrónimo soviético para a Direcção-Geral dos Campos, o departamento governamental encarregado de administrar centenas de campos de concentração espalhados pela União Soviética. Contrariamente à ideia corrente de que o sistema seria uma criação de Estaline, os apresentadores sublinham que os campos existem desde 1918, com o decreto fundador datado de 1919, e que em 1921 — ainda sob Lenine — já havia 84 complexos de campos. O gulag é, portanto, uma instituição leninista, inseparável da própria fundação do regime soviético. Em 1940, o número de complexos tinha crescido para 476, cada um podendo incluir vários campos satélites.

A escala humana do sistema é apresentada com rigor. Com base nos arquivos soviéticos e no trabalho do historiador Orlando Figes, estima-se que entre 1930 e 1953 cerca de 25 milhões de pessoas passaram pelos campos — o equivalente a 14% da população total da União Soviética em 1939. Em 1953, quando o desmantelamento começou, havia ainda 2,4 milhões de prisioneiros detidos. A mortalidade era brutal: em 1941-42, cerca de um quarto dos presos morreu de fome, exaustão, frio e maus-tratos. A título comparativo, no último ano do império czarista havia 28.600 condenados a trabalhos forçados na Sibéria — cem vezes menos do que nos piores anos soviéticos. Para além dos campos, o sistema repressivo incluía deportações étnicas em massa e execuções directas: só em 1938 terão sido fuziladas cerca de 800 mil pessoas pela polícia política.

Os apresentadores explicam também a lógica económica e política do gulag. Os campos funcionavam como reserva de trabalho escravo, sendo fundamentais para a extracção de ouro, carvão e madeira, e para grandes obras de prestígio como o Canal do Mar Branco, construído entre 1931 e 1933, onde morreram pelo menos 25 mil prisioneiros. Quem era enviado para os campos não eram, regra geral, os opositores declarados ao regime — esses eram imediatamente fuzilados —, mas sim "suspeitos" e "indesejáveis": descendentes de aristocratas, engenheiros acusados de sabotagem, trabalhadores pouco empenhados, ou simples cidadãos cuja origem étnica os tornava politicamente inconvenientes. O escritor Varlam Chalámov, por exemplo, foi condenado a dez anos na Colima por ter escrito numa crítica literária que Ivan Búnin era um grande clássico. Antes de serem presos, os detidos passavam por um processo de desumanização — despedimento, denúncia pública, divórcio forçado — que os reduzia socialmente a nada antes de chegarem aos campos.

A segunda parte do episódio é dedicada à memória do gulag no Ocidente, centrada na figura de Alexandre Soljenítsin. Rui Ramos narra a história do Arquipélago Gulag: escrito em segredo a partir de 1958, com mais de 200 testemunhos recolhidos clandestinamente, o manuscrito foi distribuído em fragmentos por uma rede de amigos para evitar a confiscação pelo KGB. Em 1973, a polícia soviética prendeu e torturou uma das guardiãs do manuscrito, que se suicidou de remorsos. Perante este facto, Soljenítsin ordenou a publicação imediata no Ocidente. O livro saiu em 1974 e vendeu um milhão de exemplares só em França nesse ano, contribuindo decisivamente para desacreditar os partidos comunistas ocidentais. Os apresentadores recomendam ainda a novela Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch e, para leitura académica, o Gulag: Uma História de Anne Applebaum.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Revolução Russa de 1917
  • Anos 1930
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Estado Novo
  • Guerra Civil de Espanha

Temas

  • repressão política
  • campos de concentração
  • trabalho forçado
  • totalitarismo
  • comunismo
  • dissidência
  • escravatura moderna
  • terror de Estado
  • memória histórica
  • falsificação da história

Eventos

  • Revolução de Outubro de 1917
  • Grande Terror de 1938
  • coletivização da Ucrânia
  • construção do Canal do Mar Branco
  • morte de Stalin em 1953
  • Prémio Nobel da Literatura 1970
  • 25 de Abril de 1974

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil de Espanha

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Livros citados

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