Nº 37729 de setembro de 20261h07efeméride
Quem foi Mao Tsé-Tung, morto há 50 anos?
O episódio analisa a vida e legado de Mao Tsé-Tung, morto há 50 anos, que transformou a China num Estado comunista mas causou entre 30 a 50 milhões de mortes através do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural. Discute-se como Mao emergiu como líder comunista através da guerrilha rural, conquistou o poder em 1949, implementou políticas radicais e violentas de transformação social, e como o seu legado perdura na China contemporânea apesar das reformas capitalistas de Deng Xiaoping.
Ideias principais
- O comunismo chinês surgiu paradoxalmente como produto do imperialismo ocidental, com intelectuais chineses a adoptarem o marxismo como forma de nacionalismo para fortalecer a China face às potências estrangeiras.
- Mao consolidou-se como líder não através da ortodoxia marxista urbana mas pela organização de base rural e guerrilha no campo, contrariando a doutrina clássica que privilegiava o proletariado urbano como vanguarda revolucionária.
- O Grande Salto em Frente (1958) e a Revolução Cultural (1966-1976) causaram a maior fome da história e destruição cultural massiva, com Mao utilizando técnicas stalinistas de revolução permanente e purgas constantes para manter o poder absoluto.
- A destruição das elites do Partido Comunista por Mao durante a Revolução Cultural, paradoxalmente, facilitou as reformas capitalistas de Deng Xiaoping ao impedir a cristalização de interesses conservadores como aconteceu na União Soviética.
- A essência do regime chinês actual é a manutenção do poder do Partido Comunista independentemente das políticas económicas, seguindo o princípio de que 'a cor do gato não interessa, desde que cace ratos' — permitindo capitalismo selvagem sob ditadura comunista.
Resumo do episódio
Neste episódio de «E o Resto é História», Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre a figura de Mao Tsé-Tung, por ocasião dos cinquenta anos da sua morte, em setembro de 1976. O ponto de partida é uma questão aparentemente paradoxal: como é que um homem responsável pela morte de trinta a cinquenta milhões de pessoas continua a ser a figura tutelar do regime chinês meio século depois?
Os apresentadores começam por enquadrar o surgimento do comunismo na China no contexto das humilhações do século XIX, quando o império chinês foi sucessivamente derrotado por potências ocidentais e pelo Japão, perdendo soberania sobre partes do seu território. A resposta das elites chinesas foi importar ciência, tecnologia e ideias ocidentais — incluindo o marxismo — não como doutrina internacionalista, mas como ferramenta de regeneração nacional. O Partido Comunista Chinês foi fundado em Xangai em 1921, numa concessão francesa, sob a tutela financeira e ideológica do Comintern de Moscovo, e nos seus primeiros anos era dirigido por enviados soviéticos estrangeiros.
Mao distinguia-se dos restantes dirigentes comunistas, em geral letrados cosmopolitas como Zhou Enlai — que estudara no Japão e em Paris — por ser filho de camponeses do interior e por nunca ter saído da China nesta fase. Enquanto os outros líderes operavam nas cidades, Mao construiu, a partir de meados dos anos vinte, uma base de poder rural na província de Jiangxi, recorrendo a uma violência extrema e chegando a ser censurado pelo próprio partido por se afastar da ortodoxia marxista. Foi durante a Longa Marcha de 1934-1935 — uma retirada de dez mil quilómetros perante o avanço do Kuomintang de Chiang Kai-shek — que Mao se impôs definitivamente como líder, ao substituir a estratégia de confronto direto do controleiro soviético alemão Otto Braun pela tática de guerrilha. A invasão japonesa de 1937 acabou por salvar os comunistas, obrigando Chiang Kai-shek a suspender a campanha de extermínio e permitindo ao Partido Comunista reorganizar-se e crescer de sete mil para mais de três milhões de combatentes em dez anos. Em 1949, após uma guerra civil célere, Mao proclamou a República Popular da China.
No poder, Mao lançou duas grandes campanhas de transformação social cujos resultados foram catastróficos. O Grande Salto em Frente, iniciado em 1958, pretendia industrializar a China ao ritmo que a Inglaterra levara dois séculos a percorrer, concentrando os camponeses em comunas e exportando alimentos para obter divisas. O colapso da produção agrícola que se seguiu provocou a maior fome da história, com estimativas que vão de trinta a quarenta milhões de mortos entre 1959 e 1961. A Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, foi em parte uma resposta de Mao à perda de influência interna gerada por esse fracasso: mobilizando os jovens Guardas Vermelhos contra a própria cúpula do partido, destruindo instituições, universidades e património cultural, Mao copiava a técnica estalinista de purgas permanentes para impedir a cristalização de elites rivais. Rui Ramos sublinha que esta estratégia de revolução permanente, em que a política oficial mudava constantemente e a sobrevivência exigia entrega incondicional ao líder, era deliberada e eficaz para preservar o seu poder pessoal.
Os apresentadores discutem também o paradoxo da continuidade do regime após a morte de Mao. A transferência para a economia de mercado conduzida por Deng Xiaoping a partir de 1978 foi possível, em parte, porque a Revolução Cultural tinha destruído as elites partidárias, impedindo a resistência às reformas que na União Soviética travou e acabou por afundar a tentativa de Gorbatchov. Além disso, a rutura de Mao com Moscovo e a aproximação aos Estados Unidos — simbolizada pela visita de Nixon em 1972 — abriu o mercado americano à China e tornou possível o modelo de crescimento que elevou o PIB per capita chinês de três por cento para vinte e oito por cento do americano em poucas décadas. A conclusão de Rui Ramos é clara: a verdadeira herança de Mao não é nenhuma política económica específica, mas a ideia de que o essencial é o Partido Comunista manter o poder, adaptando o sistema — socialismo ou capitalismo — conforme for necessário. Essa flexibilidade, ao contrário do que sucedeu na União Soviética, permitiu ao partido sobreviver e prosperar até hoje.
Personagens
- Mao Tsé-Tung
- Zhou Enlai
- Chiang Kai-shek
- Sun Yat-sen
- Lênin
- Stalin
- Marx
- Rousseau
- Adam Smith
- Pavel Mif
- Otto Braun
- Deng Xiaoping
- Jiang Qing
- Lin Biao
- Hua Guofeng
- Khrushchev
- Mikhail Gorbatchov
- Nixon
- Edgar Snow
- Confúcio
- Yao Tongbin
- Raymond Aron
- Jean-Luc Godard
- Dostoiévski
Lugares
Épocas
- século XX
- século XIX
- século VI a.C.
- década de 1920
- década de 1930
- década de 1940
- década de 1950
- década de 1960
- década de 1970
- década de 1980
- Maio de 1968
Temas
- comunismo
- revolução
- marxismo
- nacionalismo
- imperialismo
- guerra civil
- fome
- industrialização
- reforma agrária
- ditadura de partido único
- culto de personalidade
- terrorismo de Estado
- liberalização económica
- capitalismo
- repressão política
Eventos
- Grande Salto em Frente
- Revolução Cultural
- Longa Marcha
- Revolução Soviética
- Revolta dos Boxers
- Segunda Guerra Mundial
- Massacre da Praça Tiananmen
Guerras e conflitos
- Guerras do Ópio
- Guerra Sino-Japonesa
- Guerra Civil Chinesa
Livros citados
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