Nº 27730 de outubro de 202440:17resposta a ouvintes
Revolta dos Boxers: sangue, ódio e artes marciais
O episódio analisa a Revolta dos Boxers (1899-1901), insurreição xenófoba na China contra a presença ocidental, missionários cristãos e a influência estrangeira. Rui Ramos contextualiza a decadência do Império Qing, as humilhações impostas pelas potências ocidentais através das guerras do ópio e concessões territoriais, e como a revolta levou à intervenção de oito nações. O conflito marca o início do "século da humilhação" chinês e precipita reformas que culminariam na queda do império em 1912.
Ideias principais
- A China do século XVIII era próspera e em expansão, com população triplicada e excedente comercial com a Europa, contradizendo a narrativa simplista de decadência secular.
- As guerras do ópio (1839-1842 e 1856-1860) representaram a imposição violenta do primeiro grande cartel internacional de drogas por potências ocidentais, forçando a China a legalizar a importação de ópio da Índia britânica.
- A Revolta de Taiping (1850-1864), liderada por um demagogo que se considerava irmão de Jesus Cristo, causou cerca de 20 milhões de mortos, demonstrando a profunda desagregação do Estado chinês.
- A Revolta dos Boxers não foi reprimida por partilha colonial porque a Inglaterra impôs a política de "integridade da China", preferindo exploração comercial através de governos locais ao custo de administração colonial direta.
- O episódio é celebrado hoje pela China comunista como primeiro momento de resistência anticolonial, legitimando o regime através da narrativa de ter posto fim ao "século da humilhação" iniciado com estas intervenções ocidentais.
Resumo do episódio
## A Revolta dos Boxers: China, Ocidente e o Século da Humilhação
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram a Revolta dos Boxers, o conflito que sacudiu a China entre 1899 e 1901 e que, como argumentam os apresentadores, é indispensável para compreender a forma como a China contemporânea se relaciona com o Ocidente. O tema surgiu a partir de uma sugestão do ouvinte André de Almeida Santos, que assinalou a efeméride dos 125 anos da revolta e colocou também a questão de saber por que razão Portugal não integrou a coligação de oito nações que interviu militarmente na China.
Para contextualizar o conflito, Rui Ramos recua ao século XVIII, quando a China era ainda uma potência em expansão. A população triplicara entre 1700 e 1850, o império alargara as suas fronteiras até ao Xinjiang e mantinha uma balança comercial favorável com a Europa. Porém, a partir das décadas de 1820 e 1830, começaram a acumular-se sinais de fragilidade: as campanhas militares tinham desgastado as finanças imperiais, as elites provinciais ganhavam crescente autonomia, e a dinastia Manchu — de origem estrangeira aos olhos da maioria Han — enfrentava um problema crónico de legitimidade. A este quadro acrescentava-se o domínio real de uma imperatriz-viúva, Cixi, que governou nos bastidores durante mais de quarenta anos e se opôs sistematicamente às reformas. A Revolta de Taiping, entre 1850 e 1864, ilustra bem a profundidade desta crise: uma guerra civil de catorze anos que terá provocado cerca de vinte milhões de mortos.
A pressão externa agravou ainda mais a situação. As chamadas Guerras do Ópio — em que a Grã-Bretanha, e depois também a França, forçaram a abertura do mercado chinês ao ópio produzido na Índia — resultaram em derrotas militares humilhantes e na cessão de Hong Kong. Ao longo da segunda metade do século XIX, as potências ocidentais e o Japão foram impondo concessões territoriais nas principais cidades, onde os seus cidadãos gozavam de estatuto de extraterritorialidade, isentos das leis e autoridades chinesas. A Rússia avançava pelo norte, o Japão pela Coreia e por Taiwan, a França consolidava-se na Indochina. No interior das cidades chinesas existiam enclaves com arquitetura e leis europeias onde os próprios chineses não podiam entrar. No fim do século XIX, muitos observadores antecipavam uma partilha da China à semelhança do que acontecera em África.
É neste contexto de humilhação acumulada que emerge a Sociedade dos Punhos Justos — Yi He Tuan —, a organização de artes marciais que os ocidentais apelidaram de "boxers". Composta sobretudo por camponeses e marginais, esta sociedade secreta tinha como alvo principal os missionários cristãos, que não só pregavam nas aldeias como usavam a sua influência junto das autoridades locais para obter tratamento favorável aos convertidos, gerando forte ressentimento nas comunidades. A revolta rapidamente escalou: os boxers massacraram missionários e cristãos chineses, atacaram Pequim no verão de 1900 e cercaram o bairro diplomático. O governo imperial, inicialmente ambivalente, acabou por apoiar a revolta, vendo nela uma oportunidade de recuperar legitimidade popular. A notícia — infundada — de que as embaixadas tinham caído e todos os europeus haviam sido mortos desencadeou na Europa um clamor que precipitou a resposta militar conjunta das oito nações: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Áustria, Rússia, Estados Unidos e Japão. Portugal, com interesses limitados a Macau no sul do país, enviou apenas um navio de guerra e não participou com tropas. A força era composta maioritariamente por japoneses e russos, por razões de proximidade geográfica. Em agosto de 1900, as tropas tomaram Pequim — que não resistiu militarmente de forma organizada —, descobrindo que as embaixadas ainda se mantinham de pé. A imperatriz Cixi fugiu disfarçada.
Personagens
- Kaiser Guilherme II
- Alfred von Waldersee
- Lord Salisbury
Lugares
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- transição do século XIX para o século XX
Temas
- imperialismo
- colonialismo
- revoltas populares
- sociedades secretas
- missionários cristãos
- comércio internacional
- guerras do ópio
- extraterritorialidade
- artes marciais
- reformas constitucionais
- decadência imperial
- humilhação nacional
- modernização
Eventos
- Revolta dos Boxers
- Revolta de Taiping
- partilha da África
- construção do Transsiberiano
- ocupação de Pequim
- saque do Palácio de Verão
- queda do Império Chinês
- proclamação da República da China
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra do Ópio (1839-1842)
- Segunda Guerra do Ópio (1856-1860)
- Revolta de Taiping (1850-1864)
- Guerra Sino-Japonesa (1894-1895)
- Guerra Franco-Chinesa (1884-1885)
- Revolta dos Boxers (1899-1901)
- Guerra dos Boers
- Guerra Russo-Japonesa (1904)
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Chinesa
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