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Nº 10330 de junho de 202143:29resposta a ouvintes

Há mapas com o Brasil antes deste ser descoberto?

Episódio dedicado a perguntas de ouvintes sobre dois temas: a existência de mapas anteriores aos descobrimentos oficiais e a Guerra Fantástica (1762-63). Rui Ramos desmonta teorias revisionistas sobre descobrimentos portugueses, explicando a diferença entre contactos fortuitos e descobrimentos sistemáticos, e a natureza da cartografia medieval. Depois analisa a participação portuguesa na Guerra dos Sete Anos, caracterizada por três invasões franco-espanholas sem batalhas decisivas e forte resistência popular.

Ideias principais

  1. Os descobrimentos portugueses não foram uma corrida para chegar primeiro, mas um esforço sistemático e organizado para estabelecer contactos regulares, ocupação e integração comercial de novos territórios no espaço europeu.
  2. A cartografia medieval incluía terras imaginárias, ilhas inexistentes e informações vagas de contactos fortuitos, o que explica representações de terras antes da sua descoberta oficial sem invalidar as datas históricas estabelecidas.
  3. A chamada política de sigilo portuguesa é exagerada pela historiografia: havia alguma reserva mas era impossível ocultar o comércio, os navios tinham tripulações internacionais e Portugal reivindicava publicamente os descobrimentos ao Papa.
  4. A Guerra Fantástica (1762-63) foi caracterizada por três invasões franco-espanholas a Portugal sem nenhuma batalha decisiva, com avanços e recuos constantes, revelando indecisão estratégica dos invasores e forte resistência da população civil portuguesa.
  5. A cultura militar portuguesa do século XVIII baseava-se mais na resistência popular armada do que num exército profissional forte, tornando Portugal difícil de invadir devido ao terreno acidentado e à hostilidade generalizada da população camponesa aos invasores.

Resumo do episódio

O episódio 103 de *E o Resto é História* é inteiramente dedicado a perguntas dos ouvintes e divide-se em dois grandes temas: a questão dos mapas que aparentemente mostram territórios antes do seu descobrimento oficial, e a chamada Guerra Fantástica do século XVIII.

A primeira pergunta parte da observação de que existem cartas náuticas e mapas dos séculos XV e XVI que representam terras antes de estas terem sido oficialmente descobertas. Rui Ramos começa por desafiar a própria premissa, questionando o que se entende verdadeiramente por "descobrimento". Ao contrário do que uma leitura superficial poderia sugerir, os descobrimentos não foram uma simples corrida para chegar primeiro a um território e fincar uma bandeira. Foram antes um processo sistemático e organizado de estabelecer contactos regulares, rotas comerciais e ocupação efectiva de terras até então fora do espaço de actividade europeu. Contactos esporádicos e fortuitos — um barco desviado da rota que avista uma ilha, um marinheiro que transmite uma informação vaga — existiram sempre, mas não geraram carreiras regulares nem integração no mundo conhecido. É por isso que a Ilha da Madeira já aparece numa carta de 1370 com esse nome, mas só foi "descoberta" no século XV: havia uma vaga notícia, não um conhecimento sistematizado.

A isto acresce o problema da cartografia medieval e do início da Idade Moderna. Os mapas da época não deixavam em branco as zonas desconhecidas: preenchiam-nas com ilhas imaginárias, reinos fantásticos, unicórnios e gigantes de um só olho. Um exemplo eloquente é o de Guglielmo Soleri, cartógrafo provavelmente catalão, que numa carta de 1385 regista uma "ilha do Brasil" — uma ilha que simplesmente não existia. O nome Brasil seria depois aplicado à costa sul-americana que os navegadores portugueses começaram a frequentar no final do século XV, num processo em que as ilhas imaginárias se iam deslocando nos mapas à medida que a zona onde estavam colocadas era explorada sem as encontrar. Concluir daí que o Brasil era conhecido antes de Álvares Cabral equivaleria, como ironiza Rui Ramos, a concluir que existiam unicórnios porque aparecem nos mesmos mapas.

Rui Ramos aborda ainda a chamada "política de sigilo", a tese de que os reis de Portugal teriam deliberadamente ocultado os seus descobrimentos para não darem vantagem a outras potências europeias. A ideia foi avançada no século XIX pelo Cardeal Saraiva e retomada no século XX por Jaime Cortesão e Armando Cortesão. Seguindo de perto Luís Albuquerque, Rui Ramos admite que poderia existir alguma reserva em relação a projectos em curso, mas considera a tese do sigilo sistemático pouco sustentável: os navios portugueses andavam cheios de estrangeiros, os próprios navegadores mudavam de serviço entre coroas com frequência, e o objectivo dos descobrimentos — o comércio — era por natureza impossível de ocultar.

A segunda parte do episódio é dedicada à Guerra Fantástica, nome dado à participação portuguesa na Guerra dos Sete Anos. Este conflito global, travado entre 1756 e 1763 sobretudo entre a Grã-Bretanha e a França, chegou à Península Ibérica em 1762, quando a Espanha, alinhada com a França pelo Pacto de Família entre as casas de Bourbon, atacou Portugal, aliado histórico da Inglaterra. As motivações eram tanto geopolíticas — abrir uma frente que dispersasse as forças inglesas — como territoriais, nomeadamente o contencioso em torno da Colónia do Sacramento no Uruguai, um grande centro de contrabando português que prejudicava os interesses espanhóis no Rio da Prata.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIII
  • século XIV
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média
  • Idade Moderna
  • anos 60

Temas

  • descobrimentos
  • cartografia
  • navegação
  • guerra
  • diplomacia
  • alianças militares
  • contrabando
  • comércio
  • colonialismo
  • historiografia
  • política de sigilo
  • resistência popular
  • invasões
  • organização militar

Eventos

  • descobrimentos portugueses
  • Terremoto de 1755
  • Guerra dos Sete Anos
  • Guerra Fantástica
  • Conferência de Berlim
  • invasões francesas
  • Primeira Guerra Mundial
  • Tratado de Madrid de 1750
  • Pacto de Família

Guerras e conflitos

  • Guerra dos Sete Anos
  • Guerra Fantástica
  • Guerra da Sucessão de Espanha
  • invasões francesas
  • invasões napoleónicas
  • Primeira Guerra Mundial

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