Nº 10009 de junho de 202154:14resposta a ouvintes
Especial nº 100 de História alternativa: E se...?
Episódio especial número 100 dedicado à história contrafactual, explorando cenários alternativos da história portuguesa e mundial através de perguntas dos ouvintes. Rui Ramos e João Miguel Tavares analisam dez hipóteses 'e se', desde o terramoto de 1755 até à Batalha de São Mamede, passando pelas guerras mundiais e pela história recente portuguesa. O exercício não é mera ficção mas uma ferramenta para avaliar a importância de factores históricos específicos e compreender melhor os processos que moldaram a realidade.
Ideias principais
- A história contrafactual tem regras rigorosas: só se altera um factor de cada vez para medir a sua verdadeira importância, e deve-se avaliar se a mudança era provável, não apenas possível.
- Sem o terramoto de 1755, Lisboa teria provavelmente sofrido na mesma uma remodelação no século XIX à semelhança de Paris, mas teríamos preservado um património documental e artístico inestimável que moldaria completamente a nossa compreensão do passado português.
- A vitória de D. Sebastião em Alcácer-Quibir era possível e teria provavelmente resultado num rei absoluto forte que evitaria a tutela espanhola, transformando-o num 'novo D. João II' em vez do 'louco' da historiografia tradicional.
- Sem a entrada inglesa na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha poderia ter vencido e criado uma união económica europeia 80 anos antes da UE actual, evitando Hitler e a Segunda Guerra Mundial, já que a derrota de 1918 foi crucial para a ascensão nazi.
- Mesmo sem o 25 de Abril de 1974, Portugal não viveria hoje em ditadura: a guerra colonial era insustentável económica e diplomaticamente, e uma transição democrática à espanhola teria ocorrido inevitavelmente na segunda metade dos anos 70.
Resumo do episódio
No centésimo episódio de «E o Resto é História», Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicaram todo o programa à história contrafactual, respondendo a perguntas enviadas pelos ouvintes sobre grandes momentos em que o curso dos acontecimentos poderia ter sido diferente. Antes de avançar, Rui Ramos estabeleceu uma regra metodológica essencial: o exercício só tem utilidade intelectual se admitir a alteração de um único fator de cada vez, não para ficcionar mundos imaginários, mas para avaliar o peso real de cada acontecimento ou decisão na história.
A primeira questão foi sobre Lisboa sem o terramoto de 1755. Ramos argumentou que, embora alguns edifícios notáveis — como o Palácio da Ribeira, a Ópera do Tejo e o Hospital Real de Todos os Santos — provavelmente ainda existissem, é duvidoso que a Baixa pombalina fosse muito diferente, dado que em meados do século XIX havia já planos para modernizar a cidade à semelhança do que Haussmann fez em Paris. O que mais lamentou foi a perda irreparável de espólios culturais: a biblioteca de 70 mil volumes de D. João V, coleções de pintura, manuscritos e arquivos de instituições como a Casa da Índia. Sem o terramoto, a nossa compreensão do passado português seria provavelmente muito mais rica.
Seguiu-se a pergunta mais solicitada pelos ouvintes: e se D. Sebastião tivesse vencido e sobrevivido em Alcácer-Quibir? Ramos refutou a ideia de que a expedição a Marrocos foi uma loucura condenada à partida, lembrando que o rei se preparou cuidadosamente e que o exército marroquino estava fragilizado por uma guerra civil. Uma vitória teria permitido a D. Sebastião afirmar um poder real forte, que há décadas se encontrava enfraquecido por regências e pela tutela espanhola. Em vez do «rei tolo» da memória coletiva, poderíamos tê-lo como um novo D. João II.
Sobre a guerra civil de 1832-1834, Ramos considerou que, mesmo que D. Miguel tivesse vencido, Portugal não teria permanecido numa monarquia absoluta estrita. A pressão internacional dos governos liberais britânico, francês e espanhol, aliada à existência de moderados dentro do campo miguelista, teria empurrado o regime para alguma forma de constitucionalismo — mais conservador e com um poder real mais robusto, à imagem do modelo prussiano, mas que teria preservado mosteiros, morgadios e as centenas de câmaras municipais existentes. Paradoxalmente, este conservadorismo poderia a prazo ter produzido um Estado menos interventivo, o que, notaram os apresentadores com ironia, se aproxima de certos ideais liberais actuais.
A questão da família real não ter escapado para o Brasil em 1807 rendeu uma análise de três consequências prováveis: um ataque naval britânico a Lisboa, a independência imediata do Brasil já em 1808 — como aconteceu na América Espanhola quando Napoleão capturou os Bourbons —, e a fragmentação do Brasil em várias repúblicas, à semelhança do que sucedeu nas antigas colónias espanholas. Quanto à Segunda Guerra Mundial, a hipótese de a Grã-Bretanha ter assinado um armistício com a Alemanha em 1940 foi examinada com detalhe. Ramos explicou por que Churchill e, surpreendentemente, Chamberlain e Lord Halifax chegaram à mesma conclusão: aceitar negociações seria irreversível, ao passo que continuar a guerra mantinha abertas outras opções, incluindo arrastar os Estados Unidos para o conflito. Sem a Grã-Bretanha na guerra, a Europa Ocidental teria ficado sob domínio nazi por décadas, com Hitler a morrer num continente fascista nos anos sessenta ou setenta.
Personagens
- Jorge Silva
- Marquês de Pombal
- D. João V
- Miguel Lucas
- Luís Alves
- Luís Corte Real
- Rui Pedro Melo
- D. Sebastião
- Francisco Daldana
- Thomas Stuckley
- Carlos V
- Filipe II
- D. João III
- D. Catarina
- Infante D. Henrique
- D. João II
- Pedro Cunha
- Sérgio Amaral
- Nelson Brito
- Sebastião Vanudan
- D. Miguel
- D. Pedro IV
- Duque de Cadaval
- Filipe Jardim
- Napoleão
- Gustavo Rosa
- Winston Churchill
- David Lloyd George
- Adolf Hitler
- Neville Chamberlain
- Lord Halifax
- Benito Mussolini
- Kaiser Guilherme II
- Francisco Montanha Rebelo
- Rodrigo Sapreira
- Franklin D. Roosevelt
- João Almeida e Silva
- Luís Rebelo
- Marcelo Caetano
- Costa Gomes
- António de Spínola
- Sá Carneiro
- Adelina Amaro da Costa
- Pedro Delgado Montar
- David
- Filipe Charter
- Margaret Thatcher
- Ronald Reagan
- Mikhail Gorbachev
- Cavaco Silva
- Filipe Santos
- Florentino Cardoso
- D. Afonso Henriques
- D. Teresa
- José Ramon Pichel
- D. Urraca
- Afonso VII
- Afonso VI
- Fernão Peres de Trava
Lugares
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- meados do século XVIII
- fim do século XIX
- primeira metade do século XVIII
- Estado Novo
- anos 1980
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- 1578
- 1755
- 1807
- 1808
- 1822
- 1828
- 1832
- 1834
- 1914
- 1918
- 1939
- 1940
- 1941
- 1973
- 1974
- 1980
- 1127
- 1128
- 1139
Temas
- história contrafactual
- história alternativa
- guerra
- monarquia
- revolução
- descolonização
- democracia
- ditadura
- urbanismo
- património
- geopolítica
- absolutismo
- liberalismo
- constitucionalismo
- colonialismo
- independência
- nazismo
- bloqueio naval
- reforma constitucional
Eventos
- Terramoto de 1755
- Batalha de Alcácer-Quibir
- Guerra Civil Portuguesa (1828-1834)
- Invasões Napoleónicas
- Desembarque no Mindelo
- Cerco do Porto
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Ataque a Pearl Harbor
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- Queda do avião de Camarate
- Batalha de São Mamede
- Crise do petróleo
Guerras e conflitos
- Batalha de Alcácer-Quibir
- Guerra Civil Portuguesa (1828-1834)
- Invasões Napoleónicas
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Colonial
- Batalha de São Mamede
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