Nº 4229 de abril de 202041:23resposta a ouvintes
Os portugueses chegaram ao Brasil antes de 1500?
O episódio debate se os portugueses chegaram ao Brasil antes de 1500 e a nacionalidade de Cristóvão Colombo, respondendo a perguntas de ouvintes. Rui Ramos explica que o importante não são as navegações esporádicas, mas o estabelecimento de rotas regulares e conhecimento partilhado que caracterizou os descobrimentos entre os séculos XV-XVI. Aborda ainda a arbitragem de MacMahon sobre Moçambique e a relação simbólica entre os reinos medievais ibéricos e os visigodos.
Ideias principais
- O relevante nos descobrimentos não é quem chegou primeiro esporadicamente, mas quem estabeleceu rotas regulares e conhecimento público partilhado que transformaram o mundo
- A política do sigilo de D. João II, teoria desenvolvida por Jaime Cortesão, permite especulações sobre navegações secretas, mas as navegações serviam precisamente para dar glória e proveito, não para serem secretas
- A obsessão portuguesa em reivindicar a descoberta da América ou a nacionalidade de Colombo deriva da mágoa de não ter descoberto o continente que se tornou mais importante no século XIX-XX, apesar do pioneirismo nas navegações
- A arbitragem de MacMahon em 1875 garantiu Lourenço Marques a Portugal, mas criou a ilusão fatal de que outras potências apoiariam sempre Portugal contra a Inglaterra, levando à humilhação do Ultimato de 1890
- A ligação simbólica dos reinos cristãos medievais ibéricos aos visigodos foi uma construção ideológica para legitimar a Reconquista como recuperação, não conquista, apagando a dimensão de pilhagem e colonização francesa do movimento
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* parte de um conjunto de perguntas enviadas por ouvintes sobre a descoberta do Brasil e da América, nomeadamente se os portugueses teriam chegado ao Brasil antes de 1500 e se essa eventual descoberta teria sido mantida em segredo, e ainda sobre a nacionalidade de Cristóvão Colombo. O historiador Rui Ramos aproveita as questões para, mais do que responder a curiosidades pontuais, explicar o que está verdadeiramente em causa quando se debatem estas teorias.
Ramos começa por enquadrar o período entre 1419, com a descoberta da Madeira, e o início do século XVI, como uma época de navegações sistemáticas e continuadas que criaram um conhecimento partilhado de novas rotas e novas terras. O que distingue as descobertas de Colombo e de Pedro Álvares Cabral de eventuais contactos anteriores não é a simples chegada física a um território, mas sim o facto de essas viagens terem dado origem a ligações regulares e duradouras que integraram a América e o Brasil numa rede europeia de comércio, conquista e missionação. A chegada dos vikings à América do Norte no século XI, por exemplo, não teve esse efeito estrutural. A falta de documentação sobre as navegações mais antigas, aliada ao sigilo com que por vezes as cortes europeias tratavam os resultados das suas explorações - como ilustra a ordem de D. Afonso V de afogar as tripulações estrangeiras capturadas a sul das Canárias -, abre espaço a muita especulação, mas não é suficiente para sustentar teorias de descobertas secretas.
A questão do Tratado de Tordesilhas de 1494, frequentemente invocada como prova de que os portugueses já conheciam o Brasil, é também desmontada: o que foi ali delimitado não era o Brasil tal como o conhecemos, mas um território cuja natureza e utilidade eram então mal compreendidas. O próprio facto de as instruções dadas a Cabral à partida em 1500 o mandarem não perder tempo com o que encontrasse pelo caminho, porque a prioridade era a Índia, mostra bem que o Brasil não era então nenhuma descoberta antecipada e estrategicamente guardada.
Ramos explica depois que grande parte destas teorias nasceu no século XIX, quando os Estados nacionais europeus começaram a disputar o prestígio de ter fundado o mundo moderno. Portugal, que realizou a maioria das grandes navegações, carregou sempre a mágoa de a América - o território que mais importância viria a ter - ter sido descoberta por Colombo, identificado como italiano ao serviço de Espanha, e até baptizada com o nome de outro italiano, Américo Vespúcio. Esta insatisfação gerou várias estratégias: afirmar que navegadores portugueses como os Corte-Real tinham também chegado à América do Norte, sugerir que Colombo aprendera tudo em Portugal, ou, mais radicalmente, reclamar que Colombo era afinal português - teoria desenvolvida por Patrocínio Ribeiro no início do século XX, segundo a qual o navegador seria alentejano.
O episódio inclui ainda dois outros temas trazidos por ouvintes. O primeiro é o da cerveja moçambicana 2M, cujo nome homenageia o presidente francês MacMahon, árbitro em 1875 de uma disputa entre Portugal e a Grã-Bretanha sobre a região da Baía da Lagoa, actual Maputo, que foi favorável a Portugal. Ramos aproveita para sublinhar que Moçambique e Angola tal como as conhecemos são construções do final do século XIX, resultantes de negociações entre potências europeias, e que a esperança portuguesa de repetir essa arbitragem favorável conduziu ao desastre do Ultimato britânico de 1890. O segundo tema é a ligação entre a fundação de Portugal e o reino visigótico: Ramos explica que essa ligação é sobretudo ideológica e simbólica, tendo servido para legitimar a Reconquista como recuperação de um território cristão, ocultando tanto a origem heterogénea dos reinos do norte peninsular como a forte influência francesa nesse processo.
Personagens
Lugares
Épocas
- século XV
- século XVI
- século XI
- século XIX
- século XX
- época moderna
- Idade Média
- século XVII
- século VIII
- século IX
- século X
Temas
- descobrimentos
- navegação
- expansão marítima
- colonialismo
- comércio
- conquista
- missionação
- escravatura
- cartografia
- ciência náutica
- diplomacia
- arbitragem internacional
- historiografia
- prestígio nacional
- reconquista cristã
- sucessão dinástica
Eventos
- descoberta da Madeira
- descoberta da América
- descoberta do Brasil
- circunnavegação de Fernão de Magalhães
- Tratado de Tordesilhas
- Ultimato britânico de 1890
- Conferência de Berlim
- invasão muçulmana da Península Ibérica
- queda do reino visigótico
Guerras e conflitos
- Reconquista cristã
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