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Nº 29826 de março de 202537:56resposta a ouvintes

Qual era a nacionalidade de Cristóvão Colombo?

Episódio dedicado à questão recorrente dos ouvintes sobre a nacionalidade de Cristóvão Colombo e as teorias que defendem que seria português. Rui Ramos analisa a historiografia sobre o tema, explicando como surgiu no século XX, no contexto da imigração portuguesa nos EUA, a tese de que Colombo seria português e até agente secreto de D. João II. Conclui que a explicação mais simples e provável continua a ser a origem genovesa, aceite pela generalidade dos historiadores.

Ideias principais

  1. A nacionalidade italiana/genovesa de Colombo é aceite pela maioria dos historiadores profissionais desde o século XV, baseada em fontes contemporâneas consistentes.
  2. A tese da nacionalidade portuguesa surgiu apenas no século XX, no contexto de rivalidade entre comunidades imigrantes nos Estados Unidos (italianos, espanhóis e portugueses) que procuravam valorizar-se através de Colombo.
  3. As teorias da conspiração sobre Colombo ser agente secreto de D. João II para desviar os espanhóis são contraditórias, pois Colombo fez precisamente o oposto: trouxe a atenção espanhola para o Atlântico, prejudicando os interesses portugueses.
  4. A teoria da política do sigilo, proposta por Jaime Cortesão, é altamente duvidosa porque no século XV os europeus faziam questão de anunciar descobertas para estabelecer prioridade e direitos sobre novos territórios.
  5. Aplicando o princípio da navalha de Occam, a explicação italiana é a mais simples e não exige teorias rebuscadas de identidades secretas, ao contrário das teses portuguesa, espanhola, croata ou inglesa.

Resumo do episódio

Neste episódio do podcast *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem à pergunta que, segundo afirmam, mais frequentemente recebem dos ouvintes: qual era a verdadeira nacionalidade de Cristóvão Colombo? A questão surge habitualmente acompanhada da suspeita de que o navegador seria afinal português, eventualmente a operar como agente secreto ao serviço da coroa portuguesa. Os apresentadores propõem-se tratar o tema com o rigor que lhe é devido, sem tentar resolver definitivamente o mistério, mas explicando o que a historiografia sabe, o que ignora e, sobretudo, de onde vêm as teorias alternativas.

Rui Ramos começa por contextualizar o estado da questão entre os historiadores profissionais. A nacionalidade genovesa de Colombo — nascido por volta de 1450-1451 — é aceite pela esmagadora maioria dos especialistas como a hipótese mais plausível, sendo defendida, entre outros, pela historiadora espanhola Consuelo Varela, considerada uma das maiores autoridades na matéria. As dúvidas que existem dizem respeito sobretudo às origens sociais do navegador, não à sua proveniência geográfica. A ausência de registos civis de nascimento no século XV, a vida itinerante de Colombo — que trabalhou para várias coroas europeias e escreveu em castelhano com aparentes marcas de estrangeiro — e o seu deliberado silêncio sobre as próprias origens alimentaram, ao longo do tempo, especulações de diversa natureza. Quanto a este silêncio, Ramos explica que Colombo tinha boas razões para o manter: numa sociedade fortemente hierarquizada como a da Europa do século XV, alguém de origens humildes — possivelmente filho de um tecedor genovês — não tinha interesse em divulgar esse passado depois de ascender ao título de almirante e governador das Índias. O filho de Colombo chegou mesmo a escrever que o pai não queria que se falasse das suas origens.

Os apresentadores descrevem ainda a figura de Colombo como a de um empreendedor visionário — comparado, com alguma ironia, a Elon Musk — que vendia o seu projecto de navegação para ocidente não apenas como empresa geográfica ou comercial, mas também em linguagem religiosa e apocalíptica: a chegada às Índias deveria financiar uma nova cruzada para libertar Jerusalém e precipitar o fim dos tempos. Esta visão era partilhada, aliás, com o próprio rei D. Manuel de Portugal, que enviou Vasco da Gama à Índia com objectivos semelhantes.

A parte central do episódio é dedicada à origem das teorias que atribuem uma nacionalidade portuguesa a Colombo. Ramos situa esse fenómeno no início do século XX, num contexto muito preciso: a chegada em massa de imigrantes do sul da Europa aos Estados Unidos e a necessidade dessas comunidades de se afirmarem face à hegemonia anglo-saxónica. Italianos e espanhóis invocavam Colombo como símbolo de pertença histórica ao continente americano; os portugueses, comunidade mais pequena, tentaram entrar nessa disputa argumentando que navegadores seus teriam chegado à América antes de Colombo — a chamada teoria da pedra de Dighton, tema já tratado num episódio anterior do podcast. Dentro desta lógica surgiu também a teoria do sigilo, proposta pelo historiador Jaime Cortesão, segundo a qual os portugueses tinham descoberto a América mas guardado segredo para não alertar os rivais. Em 1914, um erudito espanhol, Henrique de Arribas, avançou com a tese de que Colombo era galego, com base na análise das suas assinaturas e nos topónimos que atribuiu às ilhas das Caraíbas. Um funcionário camarário de Lisboa, Patrocínio Ribeiro, ficou tão impressionado que concluiu que os mesmos argumentos serviam para provar que Colombo era português — e natural de Cuba, no Alentejo. A partir daí multiplicaram-se as identificações alternativas: Simão Palha, Salvador Fernandes Zarco, ou até o duque de Viseu, que teria fingido a própria morte para ir descobrir a América em segredo.

Ramos desmonta sistematicamente estas teorias, recorrendo ao princípio da navalha de Ockham: a explicação mais simples é a mais credível. A hipótese italiana não exige conspirações, agentes duplos nem silêncios de quatrocentos anos. As fontes dos séculos XV e XVI tratam Colombo consistentemente como genovês, e ninguém contestou isso até ao século XX. Além disso, a presença de italianos na Península Ibérica da época era perfeitamente comum, dado o papel dos banqueiros e comerciantes italianos no financiamento das viagens de exploração. O episódio termina com uma reflexão mais ampla sobre o apelo das teorias da conspiração — ilustrado com o caso paralelo da autoria das obras de Shakespeare —, concluindo que, por mais sedutoras que sejam narrativamente, raramente resistem a uma comparação rigorosa com a explicação mais simples.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • século XXI

Temas

  • descobrimentos
  • navegação
  • teoria da conspiração
  • identidade histórica
  • imigração
  • nacionalismo
  • historiografia
  • cruzadas
  • religião
  • diplomacia
  • política do sigilo

Eventos

  • descoberta da América
  • Tratado de Tordesilhas
  • descoberta do corpo de Ricardo III
  • conquista de Granada

Livros citados

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