Nº 37515 de setembro de 20261h17análise histórica
História de Ceuta desde que passou a ser espanhola
Episódio sobre a história de Ceuta desde que se tornou espanhola em 1668, após a Restauração portuguesa. Aborda os sucessivos cercos marroquinos, o papel de Ceuta nas campanhas militares espanholas no norte de África (especialmente a Guerra do Rif e o desastre de Annual), a importância da cidade para Franco e a Guerra Civil Espanhola, e a questão contemporânea da soberania face a Marrocos independente, com ênfase nas dinâmicas demográficas e comerciais que tornaram Ceuta uma cidade próspera mas demograficamente transformada.
Ideias principais
- Ceuta foi oficialmente cedida a Espanha pelo Tratado de 1668, após 28 anos de guerra, permanecendo uma praça militar com população maioritariamente espanhola até ao século XX.
- A Guerra do Rif culminou no desastre de Annual (1921), onde Espanha teve 13 mil mortos em duas semanas face às tribos berberes de Abd el-Krim, levando ao golpe militar de Primo de Rivera.
- Franco construiu toda a sua carreira militar em Marrocos, tornando-se o mais jovem general da Europa aos 33 anos, e foi de Ceuta que partiu a rebelião nacionalista que iniciou a Guerra Civil Espanhola em 1936.
- Após a independência de Marrocos em 1956, a ausência de reconhecimento das fronteiras por parte marroquina permitiu um comércio transfronteiriço próspero que enriqueceu Ceuta, com 30 mil marroquinos diários a fazer compras sem alfândegas.
- A população muçulmana de Ceuta cresceu de 18% nos anos 1980 para cerca de 40% hoje, mas sondagens mostram que a maioria esmagadora dos residentes, incluindo muçulmanos, prefere permanecer sob soberania espanhola a integrar Marrocos.
Resumo do episódio
Este episódio de "E o Resto é História" dá continuidade a uma conversa anterior sobre Ceuta, retomando o fio da narrativa a partir do momento em que a cidade deixou de ser portuguesa para se tornar espanhola. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de 1640, ano da Restauração portuguesa, para explicar por que razão as elites que governavam Ceuta optaram por permanecer fiéis à coroa de Madrid: tinham interesses estabelecidos, razões de queixa em relação à nova dinastia de Bragança, e dependiam logisticamente de Espanha, que ficava a apenas vinte quilómetros de distância. Foi apenas em 1668, com o tratado de paz que reconheceu a independência portuguesa, que Ceuta foi formalmente cedida à Espanha — ao contrário de Olivença, sublinha-se, por via de um acordo solenemente assinado. A cidade não mudou de imediato: continuou a ser uma praça militar muralhada com dois a três mil habitantes, maioritariamente militares.
Para compreender a história de Ceuta espanhola, os apresentadores sublinham que é indispensável conhecer a história de Marrocos. A nova dinastia alauita, que assumiu o poder em meados do século XVII e governa o país até hoje, revelou-se muito mais hostil à presença cristã do que os seus antecessores. Entre 1694 e 1727, Ceuta suportou o mais longo cerco da sua história, sob ataque constante de artilharia marroquina. Em 1790, um novo sultão obrigou Espanha a deslocar doze mil soldados para defender a praça. A sobrevivência de Ceuta ao longo deste período foi custosa, levando os apresentadores a especular que, se ainda fosse portuguesa, dificilmente teria resistido com os meios de que Lisboa dispunha.
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, Espanha atravessou períodos de grave enfraquecimento — declínio das receitas americanas, epidemias, guerras de sucessão, invasão napoleónica — e Ceuta pouco evoluiu. Só em meados do século XIX as coisas começaram a mudar. A pirataria norte-africana, que vitimava barcos europeus e americanos e alimentava mercados de escravos, levou a França a conquistar Argel em 1830, iniciando a colonização da Argélia. Espanha, por sua vez, movida por três razões — a necessidade de defender as suas praças de ataques jihadi, o receio de ficar excluída da influência sobre Marrocos, e a vontade de unir os espanhóis em torno de um objetivo externo —, enviou em 1859-60 uma expedição de cinquenta mil homens que conquistou Tetuão. O general O'Donnell retirou depois da cidade, mas obteve do sultão o reconhecimento formal da soberania espanhola sobre Ceuta e Melilha. Em 1863, o estatuto de porto franco transformou Ceuta num entreposto comercial, e a população triplicou em poucas décadas.
No início do século XX, Marrocos tornou-se objeto de disputa entre as potências europeias. Em 1912, um acordo entre França e Espanha dividiu o país em dois protetorados, cabendo ao norte, incluindo as montanhas do Rife, a tutela espanhola. A pacificação desta região revelou-se extraordinariamente difícil. As tribos berberes, armadas e organizadas, resistiam ferozmente. Em 1921, Abd el-Krim liderou uma revolta que culminou no Desastre de Annual, em que os espanhóis sofreram cerca de treze mil mortos em poucos dias — uma humilhação sem precedentes. Este episódio desestabilizou a política interna espanhola e desencadeou a ditadura de Primo de Rivera. Só em 1925-26, com uma intervenção conjunta de França e Espanha totalizando quase duzentos mil soldados, a revolta foi esmagada. Ceuta foi a principal base militar deste esforço e a sua população quintuplicou entre 1900 e 1930.
Em 1936, Ceuta foi também o ponto de partida do levantamento do general Franco contra a República, o qual ali chegou no dia 19 de julho. Franco era um "africanista" que passara dez anos em Marrocos, onde forjou a sua reputação militar e adquiriu uma visão ideológica particular, entendendo o norte de África como uma espécie de prolongamento da Andaluzia islâmica. Depois da Segunda Guerra Mundial, paradoxalmente, Franco apoiou o nacionalismo marroquino contra a França, na esperança de preservar a influência espanhola. Quando em 1956 a França cedeu Marrocos à independência, a Espanha seguiu-a dez dias depois, mantendo porém Ceuta, Melilha e as restantes praças de soberania, com o argumento de que não eram colónias mas territórios habitados por cidadãos espanhóis. Nos anos seguintes, Ceuta prosperou graças a um comércio transfronteiriço tolerado, em que dezenas de milhares de marroquinos entravam diariamente para comprar produtos europeus. A população muçulmana cresceu de cerca de 18% na década de 1980 para aproximadamente 40% hoje. Rui Ramos conclui que a questão de Ceuta não é, no fundo, uma questão de geografia, mas de pessoas: numa sondagem de 2006, a maioria esmagadora dos residentes muçulmanos preferia continuar sob soberania espanhola a passar para Marrocos.
Personagens
- Filipe III de Portugal (IV de Espanha)
- D. João IV
- Almançor
- Ismail (sultão alauíta)
- Yazid (sultão alauíta)
- Leopoldo O'Donnell
- Juan Prim
- Abd el-Krim
- Miguel Primo de Rivera
- Afonso XIII de Espanha
- Philippe Pétain
- Francisco Franco
- Hồ Chí Minh
- Mohamed V (sultão/rei de Marrocos)
- Hassan II de Marrocos
- Mohamed VI de Marrocos
- Gamal Abdel Nasser
Lugares
Épocas
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- período colonial
- Guerra Civil Espanhola
- pós-guerra
Temas
- colonialismo
- guerra
- diplomacia
- soberania territorial
- nacionalismo
- identidade
- comércio
- imigração
- religião
- jihad
- pirataria
- demografia
- independência
Eventos
- Restauração de 1640
- Tratado de Paz de 1668
- Guerra da Sucessão de Espanha
- Invasões Napoleónicas
- Ocupação francesa da Argélia (1830)
- Expedição espanhola a Marrocos (1859-1860)
- Desastre de Annual (1921)
- Golpe de Primo de Rivera (1923)
- Guerra Civil Espanhola (1936-1939)
- Fim do Protetorado de Marrocos (1956)
- Marcha Verde (1975)
Guerras e conflitos
- Guerra da Restauração
- Guerra da Sucessão de Espanha
- Guerras Napoleónicas
- Guerra de Tetuão (1859-1860)
- Guerra do Rif
- Desastre de Annual
- Guerra Civil Espanhola
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra da Argélia
- Conflito do Saara Ocidental
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