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Nº 37408 de setembro de 20261h25resposta a ouvintes

História de Ceuta no tempo em que era portuguesa

O episódio analisa a história da presença portuguesa em Ceuta desde a conquista de 1415 por D. João I até à sua perda para Espanha em 1640. Explora as motivações religiosas, políticas e económicas da expansão portuguesa no Norte de África, as dinâmicas de guerra e comércio com os poderes islâmicos, e o contexto mais amplo da concorrência entre cristandade e islão nos séculos XV e XVI. Destaca-se a importância estratégica, militar e simbólica das praças portuguesas em Marrocos, culminando na análise das razões da sua manutenção e eventual perda.

Ideias principais

  1. A conquista de Ceuta em 1415 marca o início da expansão ultramarina portuguesa e insere-se num contexto mais amplo de confronto entre cristandade e islão, onde tanto europeus como otomanos procuravam expandir-se mutuamente nos territórios uns dos outros.
  2. As motivações para a conquista de Ceuta foram múltiplas: dar ocupação à nobreza guerreira, controlar rotas comerciais do ouro subsaariano, combater a pirataria, e sobretudo legitimar a dinastia de Avis através de uma empresa de prestígio religioso-militar.
  3. A presença portuguesa no Norte de África nos séculos XV e XVI era muito mais significativa do que geralmente se reconhece: cerca de 25 mil portugueses viviam nas praças africanas em 1540, mais do que na Índia, e a região atraía a mais alta nobreza portuguesa pela possibilidade de feitos de armas.
  4. A manutenção das praças norte-africanas era extraordinariamente dispendiosa (consumindo até um terço das receitas da coroa por volta de 1540) e nunca permitiu a fixação de população civil agrícola, ao contrário do que aconteceu noutras conquistas portuguesas, forçando eventualmente o abandono progressivo das posições no século XVI.
  5. Ceuta permaneceu espanhola após 1640 porque os fidalgos portugueses que a comandavam decidiram manter fidelidade a Filipe IV enquanto rei de Portugal, considerando-o o legítimo monarca contra os Bragança, enquanto Mazagão só foi abandonada em 1769, com a população inteira evacuada para o Brasil onde fundou Mazagão no Amapá.

Resumo do episódio

Este episódio de «E o Resto é História» foi despoletado por uma pergunta de um ouvinte sobre Ceuta e Melilha — dois territórios europeus encravados em pleno continente africano — e pela atenção mediática gerada pela entrada massiva de migrantes em Ceuta naquele verão. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se contar a história da fase portuguesa de Ceuta, deixando a fase espanhola para o episódio seguinte.

Para contextualizar a conquista portuguesa de 1415, Rui Ramos começa por desmistificar a ideia de que um país pertence naturalmente a um só continente. O exemplo otomano é revelador: tal como Portugal conquistou Ceuta em África, os otomanos conquistaram Constantinopla na Europa nesse mesmo século XV, e ninguém estranhou tanto isso. A divisão rígida entre Europa e resto do mundo é, argumenta Ramos, uma projeção moderna. Na época, as potências cristãs e muçulmanas não se definiam por continentes, mas por fé. O mundo mediterrânico era visto como um espaço de continuidade histórica — terras outrora cristãs, ocupadas pelo islão a partir do século VII, que se desejava recuperar. Ao mesmo tempo, os otomanos tinham ambições simétricas sobre a Europa, chegando às portas de Viena com exércitos tecnologicamente muito competitivos. Esta dupla expansão — europeia para fora e otomana para dentro — raramente é contada em conjunto.

A conquista de Ceuta por D. João I em agosto de 1415 resultou de um conjunto de motivações que os historiadores debateram longamente: dar ocupação guerreira a uma nobreza sem guerras após a paz com Castela; o desejo de controlar as rotas de ouro do Saara que se supunha chegarem a Ceuta; razões geopolíticas ligadas ao controlo do Estreito de Gibraltar; a necessidade de combater a pirataria norte-africana que assolava o Algarve; e, não menos importante, a necessidade de D. João I — um rei de legitimidade contestada — se engrandecer perante a cristandade europeia através de um feito de armas com forte carga religiosa, herdeiro do espírito das cruzadas e da reconquista. O papa tinha aliás reconhecido ao rei de Portugal, já em 1341, o direito a conquistar o reino de Fez.

Manter Ceuta revelou-se extraordinariamente dispendioso — a expedição de 1415 custou uma vez e meia o rendimento anual do Estado — e o infante D. Pedro chegou a chamar-lhe «um sumidouro de gente, armas e dinheiro». Ainda assim, Portugal insistiu, movido pela concorrência com Castela, pelos compromissos religiosos assumidos e pela expectativa de rendimentos comerciais. No reinado de D. Afonso V e, sobretudo, de D. Manuel, Portugal chegou a dominar quase toda a costa atlântica do atual Marrocos, com praças como Safim, Azamor, Mazagão e Santa Cruz do Cabo Gué, numa presença tão significativa que o historiador francês Robert Ricard a designou como o «período português de Marrocos». Por volta de 1540, estimava-se em 25 mil o número de portugueses nestas praças, mais do que em Goa. O sultão de Fez entre 1505 e 1524 era conhecido pelos seus próprios súbditos como «o Português», por ter crescido em Lisboa como refém. D. Manuel chegou a mandar cunhar moedas com a inscrição árabe «Emmanuel Malik».

Esta presença foi sendo progressivamente erodida por vários fatores: a islamização profunda das populações locais, que só se submetiam enquanto os portugueses eram militarmente mais fortes; a unificação das forças marroquinas pela dinastia Sádida; os custos crescentes; e a catástrofe de Alcácer-Quibir em 1578, onde D. Sebastião foi derrotado e morto. D. João III tinha já, entre 1541 e 1550, abandonado a maioria das praças do sul. O que restou foram Ceuta, Tânger e Mazagão — fortalezas monumentais, mas cada vez mais defensivas e menos atrativas para a grande nobreza. Em 1640, quando Portugal restaurou a independência, os fidalgos que comandavam Ceuta optaram por permanecer fiéis a Filipe IV de Espanha, o que determinou a passagem definitiva da cidade à coroa espanhola, formalizada no tratado de 1668. Tânger foi dada como dote no casamento de Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra em 1661, e os ingleses acabaram por abandoná-la em 1684. Mazagão foi evacuada em 1769, por ordem do marquês de Pombal, e a sua população — cerca de dois mil habitantes, incluindo centenas de crianças — foi transferida para o atual estado brasileiro do Amapá, onde ainda hoje existe um Mazagão Velho que preserva a tradição das festas de São Tiago com reencenações dos combates entre mouros e cristãos.

Personagens

  • D. João I
  • Nuno Álvares Pereira
  • D. Dinis
  • D. Fernando
  • Papa João XXII
  • Papa Bento XII
  • Infante D. Pedro
  • Infante D. Fernando
  • D. Afonso V
  • D. Manuel I
  • Vasco da Gama
  • Afonso de Albuquerque
  • João de Meneses
  • Nuno Fernandes de Ataíde
  • D. João III
  • D. Catarina de Áustria
  • Carlos V
  • D. Sebastião
  • Almançor
  • D. António Prior do Crato
  • Filipe II
  • Filipe III
  • Filipe IV
  • Isabel I de Inglaterra
  • D. João IV
  • Catarina de Bragança
  • Carlos II de Inglaterra
  • Marquês de Pombal
  • Marquês de Vila Real
  • Mohamed Al Portugal
  • Gil Vicente
  • Santo Agostinho
  • Henrique IV de França
  • Robert Ricard
  • Luís Filipe Tomaz
  • João Paulo Oliveira e Costa
  • Vítor Luís Rodrigues
  • António Dias Farinha
  • Augusto Ferreira do Amaral
  • Laurent Vidal

Lugares

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XI
  • século XII
  • século XIII
  • século VII
  • século VIII
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média
  • Cruzadas
  • Reconquista
  • Primeira Guerra Mundial
  • Reforma Protestante

Temas

  • expansão ultramarina
  • guerra
  • reconquista
  • cruzadas
  • religião
  • cristianismo
  • islão
  • colonialismo
  • pirataria
  • escravatura
  • comércio
  • diplomacia
  • geopolítica
  • aristocracia
  • fortificações militares
  • dinastias
  • imperialismo
  • tecnologia militar

Eventos

  • Conquista de Ceuta (1415)
  • Batalha do Rio Salado (1340)
  • Queda de Constantinopla (1453)
  • Cerco de Mazagão (1562)
  • Batalha de Alcácer-Quibir (1578)
  • Batalha dos Alcaides (1514)
  • Restauração de 1640
  • Conquista de Granada (1492)
  • Tratado de Sintra (1509)
  • Tratado de Sória (1292)
  • Cerco de Tânger (1437)
  • Expedição a Tunes (1535)
  • Ataque a Tetuão (1399)

Guerras e conflitos

  • Cruzadas
  • Reconquista
  • Guerra com Castela
  • Guerras no Norte de África
  • Expansão Otomana
  • Primeira Guerra Mundial

Livros recomendados

Livros citados

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