Nº 36614 de julho de 202653:06série especial
O corte com Inglaterra (independência americana 2)
Segundo episódio da série sobre a independência americana, centrado na ruptura entre as 13 colónias britânicas e a Inglaterra. Analisa como a vitória britânica na Guerra dos Sete Anos (1756-1763) transformou paradoxalmente a Inglaterra de protectora em opressora, ao estacionar tropas na América e impor novos impostos. A tensão fiscal e constitucional sobre representação parlamentar evoluiu para confronto militar e culminou na Declaração de Independência de 4 de julho de 1776.
Ideias principais
- A Guerra dos Sete Anos, ironicamente iniciada por George Washington na América, eliminou a ameaça francesa mas substituiu-a por uma presença militar britânica massiva de 10 mil soldados que os colonos não desejavam nem queriam pagar
- O conflito não foi inicialmente com o rei mas com o Parlamento de Londres, que ao afirmar soberania sobre a América através do American Colonies Act de 1766 transformou uma disputa fiscal sobre o Stamp Act numa questão constitucional fundamental sobre representação
- A confluência de dois movimentos intelectuais — o republicanismo iluminista inspirado em Cícero e na República Romana entre as elites, e o Great Awakening religioso entre o povo — criou as condições ideológicas para imaginar uma refundação radical da sociedade
- A Revolução Americana foi essencialmente conservadora: liderada pelas autoridades constituídas locais (assembleias, magistrados) que procuravam preservar a ordem interna das colónias contra a interferência externa britânica, não subvertê-la como faria a Revolução Francesa
- A Declaração de Independência de Jefferson, com os seus princípios universais sobre direitos inalienáveis e governo por consentimento, teve impacto revolucionário na Europa e inspirou directamente a Declaração dos Direitos do Homem francesa de 1789
Resumo do episódio
Este episódio de «E o Resto é História» é o segundo de uma série de quatro dedicada aos 250 anos da independência dos Estados Unidos da América. Rui Ramos e João Miguel Tavares centram-se no percurso que conduziu ao corte com a Inglaterra e à Declaração de Independência de 1776, procurando explicar por que razão colonos que se consideravam ingleses chegaram ao ponto de romper definitivamente com a metrópole.
O ponto de partida é a Guerra dos Sete Anos, conflito europeu travado entre 1756 e 1763 que teve consequências decisivas na América do Norte. Curiosamente, a guerra começou precisamente ali, quando George Washington, jovem oficial da milícia da Virgínia, entrou em choque com forças francesas no vale do rio Ohio. O esforço militar britânico, orientado pelo primeiro-ministro William Pitt the Elder, concentrou-se na conquista das colónias francesas, o que levou à tomada do Canadá em 1759. No tratado de paz de 1763, a França preferiu recuperar as ilhas açucareiras das Caraíbas e cedeu o Canadá à Inglaterra, troca que gerou escândalo em Londres. A Espanha, aliada da França, perdeu a Flórida mas recebeu a vasta Luisiana em compensação. O resultado mais significativo para as colónias britânicas foi a eliminação da ameaça francesa da América do Norte, que até então rodeava militarmente os estabelecimentos ingleses.
Paradoxalmente, a vitória britânica criou novos problemas. A Inglaterra saiu da guerra com uma dívida pública gigantesca e manteve dez mil soldados profissionais estacionados nas colónias. O governo de Londres, constatando que os americanos praticamente não pagavam impostos, decidiu tributá-los para cobrir esses custos. A introdução do imposto de selo em 1765, que obrigava a utilizar papel fiscal em documentos legais e jornais, desencadeou protestos imediatos. As assembleias representativas das colónias invocaram o princípio constitucional britânico de que os impostos só podiam ser aprovados por órgãos em que os contribuintes estivessem representados, o que o Parlamento de Londres não era, daí o lema «no taxation without representation». Apesar de o imposto de selo ter sido suspenso, o Parlamento aprovou em 1766 o American Colonies Act, declarando a sua soberania sobre a América, transformando assim uma disputa fiscal numa crise constitucional de fundo.
Ao mesmo tempo, a Inglaterra passou a comportar-se na América como antes se comportara a França: protegeu os índios, impediu a expansão para oeste através da Proclamação de 1763, e com o Quebec Act de 1774 estendeu a sua tutela aos católicos franceses do Canadá. Para os colonos, a Inglaterra tornara-se o novo inimigo. Os incidentes multiplicaram-se: em 1770, soldados britânicos mataram a tiro civis em Boston, episódio que ficou conhecido como o Massacre de Boston; em 1773, colonos disfarçados de índios atiraram ao mar uma enorme carga de chá da Companhia das Índias Orientais, no episódio que a posteridade chamaria de Boston Tea Party. Londres respondeu com o bloqueio naval do porto de Boston e com leis que impunham o aquartelamento de tropas nas cidades americanas.
Em paralelo com a escalada política, dois movimentos intelectuais e espirituais reforçavam o ímpeto de mudança. O iluminismo europeu levou as elites coloniais a reformular os seus direitos não apenas como privilégios dos ingleses mas como direitos naturais de todos os seres humanos, com a república romana como modelo de liberdade cívica. O Great Awakening, vaga de fervor religioso que percorreu as colónias desde a década de 1720, preparou as camadas populares para a ideia de uma refundação colectiva com cariz providencial. Estas duas correntes alimentariam a linguagem da Declaração de Independência, redigida sobretudo por Thomas Jefferson sob a influência de John Locke.
Personagens
- George Washington
- William Pitt the Elder
- Jorge III
- Thomas Jefferson
- Benjamin Franklin
- Edmund Burke
- John Locke
- Jaime II
- Cícero
Lugares
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XVII
Temas
- colonialismo
- guerra
- independência
- revolução
- fiscalidade
- constitucionalismo
- escravatura
- republicanismo
- religião
- economia
- direitos humanos
- iluminismo
Eventos
- Declaração de Independência dos Estados Unidos
- Guerra dos Sete Anos
- French and Indian War
- Boston Massacre
- Boston Tea Party
- Batalha de Lexington
- Primeiro Congresso Continental
- Segundo Congresso Continental
- Great Awakening
- Revolução Francesa
- Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
Guerras e conflitos
- Guerra dos Sete Anos
- French and Indian War
- Guerra de Independência Americana
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