Nº 17730 de novembro de 202252:46resposta a ouvintes
O Estado Novo brasileiro e a Guerra de Canudos
Este episódio explora dois fenómenos paralelos entre Brasil e Portugal: o sebastianismo popular que deu origem à Guerra de Canudos (1896-1897), movimento messiânico liderado por António Conselheiro no sertão brasileiro, e os dois Estados Novos que existiram simultaneamente nos anos 30-40. A conversa analisa as semelhanças e diferenças entre os regimes de Getúlio Vargas e Oliveira Salazar, mostrando como ditaduras nacionalistas e corporativistas tomaram caminhos distintos.
Ideias principais
- A Guerra de Canudos resultou num massacre de até 20 mil pessoas pelo exército brasileiro, tornando-se um dos episódios mais sangrentos da história do Brasil, imortalizado pela obra 'Os Sertões' de Euclides da Cunha.
- O sebastianismo não foi apenas um fenómeno português do século XVI-XVII, mas uma tradição popular profundamente enraizada no espaço lusófono que persistiu por 300 anos, manifestando-se no Brasil através de movimentos messiânicos como Canudos e Pedra Bonita.
- Os Estados Novos de Salazar e Getúlio Vargas partilhavam características comuns (nacionalismo, corporativismo, anticomunismo, apoio da Igreja), mas divergiam fundamentalmente: o brasileiro durou apenas 8 anos (1937-1945) enquanto o português perdurou até 1974.
- Getúlio Vargas conseguiu uma reinvenção política impossível para Salazar: depois de ser ditador nacionalista nos anos 30-40, tornou-se líder aceite pela esquerda brasileira nos anos 50, criando o trabalhismo populista que influenciaria a política brasileira por décadas.
- A diferença fundamental entre os dois líderes residia nas suas origens: Salazar era um ideólogo católico conservador de gabinete, enquanto Vargas era um político profissional experiente, cacique regional e orador populista, o que lhe permitiu navegar entre direita e esquerda.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* dedica-se a dois curiosos paralelos entre Portugal e o Brasil: a existência de um Estado Novo nos dois países e a presença do messianismo sebastianista dos dois lados do Atlântico. O ponto de partida é uma pergunta de um ouvinte sobre a Guerra de Canudos, inspirada pela leitura do romance *A Guerra do Fim do Mundo*, de Mário Vargas Llosa, e Rui Ramos e João Miguel Tavares aproveitam o mote para traçar um quadro alargado que vai do sertão baiano do século XIX até à política brasileira do século XX.
A primeira parte do episódio centra-se em António Conselheiro, pregador religioso que, a partir de 1893, atraiu dezenas de milhares de seguidores para uma comunidade estabelecida em Canudos, no nordeste do estado da Bahia. Os apresentadores enquadram este fenómeno num contexto mais amplo: a instabilidade da jovem República brasileira, proclamada por um golpe militar em 1889, e a existência de vastas zonas de fronteira interior onde a autoridade do Estado mal chegava. Nesse vácuo de poder, líderes carismáticos podiam construir comunidades quase autónomas, à semelhança do que aconteceu noutros contextos, como o Oeste americano. A comunidade de Canudos foi rapidamente vista como uma ameaça pelas autoridades republicanas, pelas elites locais e pela imprensa urbana do Rio de Janeiro e de São Paulo, que a associaram, sem fundamento, a um projeto de restauração monárquica. As primeiras expedições militares enviadas para a subjugar fracassaram sucessivamente, com contingentes claramente insuficientes a serem esmagados por uma comunidade animada por um fervor apocalíptico. Só em 1897, com uma força de oito mil soldados, o exército conseguiu esmagar Canudos, num processo descrito como um verdadeiro extermínio, com estimativas de mortos que variam entre cinco mil e vinte mil pessoas. Rui Ramos sublinha que foi sobretudo a obra *Os Sertões*, de Euclides da Cunha, publicada em 1902, que garantiu a este episódio uma ressonância duradoura, ao retratar não apenas a brutalidade da repressão, mas também a paradoxal barbarização dos representantes da civilização.
A propósito do sebastianismo professado por António Conselheiro, os apresentadores exploram a persistência desta tradição messiânica no espaço lusófono. Ao contrário do que se poderia supor, o sebastianismo não se esgotou no Portugal dos séculos XVI e XVII, associado à União Ibérica. Rui Ramos argumenta que se trata de uma tradição popular muito mais profunda e duradoura, transmitida oralmente e através da literatura de cordel, que atravessou o Atlântico e sobreviveu no nordeste brasileiro até ao século XIX — e, em certa medida, até hoje. O paralelismo com episódios como o de Pedra Bonita, em Pernambuco em 1838, reforça a ideia de que este messianismo ligado ao rei desaparecido constitui uma estrutura cultural recorrente no mundo de língua portuguesa.
A segunda parte do episódio é dedicada ao Estado Novo brasileiro de Getúlio Vargas, que vigorou entre 1937 e 1945. Os apresentadores identificam múltiplos pontos de contacto com o Estado Novo português de Salazar: a época de fundação, marcada pela crise do liberalismo e pela voga das ditaduras nacionalistas e corporativistas; a proibição de partidos e a censura; o corporativismo como forma de organização social; o esforço de construção de uma cultura popular nacional; a relação cultivada com a Igreja católica; e uma posição de ambiguidade calculada face às potências do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial, acabando ambos os países por se alinhar com os Aliados.
Mas as diferenças são igualmente significativas. A mais importante reside na duração: enquanto o Estado Novo português durou quarenta anos e se identificou profundamente com a sociedade portuguesa, o brasileiro foi apenas um episódio de oito anos, legível como uma moda do seu tempo. Além disso, Vargas era um político profissional experimentado, com raízes num sistema federal que exigia permanente flexibilidade, ao contrário de Salazar, ideólogo católico e homem de gabinete. Essa diferença de perfil explica o feito improvável de Vargas: deposto em 1945, reinventou-se como líder trabalhista e populista, sendo eleito democraticamente presidente em 1951 — uma transição que, como os apresentadores observam com alguma ironia, seria simplesmente inimaginável no caso de Salazar.
Personagens
- António Conselheiro
- Euclides da Cunha
- Mário Vargas Llosa
- Getúlio Vargas
- Oliveira Salazar
- D. Sebastião
- Padre António Vieira
- Fernando Pessoa
- Joseph Conrad
- Filipe II
- Benito Mussolini
- General Carmona
- General Dutra
- General Góis Monteiro
- Juan Perón
- Álvaro Cunhal
- Mário Soares
- Marcelo Caetano
Lugares
Épocas
- século XIX
- século XVII
- século XVI
- século XX
- anos 30
- anos 40
- Estado Novo
- República Velha
- era Vargas
Temas
- messianismo
- sebastianismo
- guerra civil
- ditadura
- corporativismo
- nacionalismo
- fascismo
- anticomunismo
- trabalho
- sindicalismo
- Igreja Católica
- repressão
- populismo
- censura
Eventos
- Guerra de Canudos
- proclamação da República Brasileira
- fim da escravatura
- Pedra Bonita
- Revolução de 1930
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil de Espanha
- 25 de Abril
- 28 de maio de 1926
Guerras e conflitos
- Guerra de Canudos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil de Espanha
Livros citados
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