Nº 27806 de novembro de 202446:37análise histórica
Perón e a tragédia da Argentina no século XX
O episódio analisa a figura de Juan Domingo Perón e o impacto do peronismo na Argentina do século XX até aos dias de hoje. Explora como a Argentina passou de um dos países mais ricos do mundo no início do século XX para um declínio económico marcado por crises, inflação crónica e instabilidade política. O peronismo é apresentado como um movimento populista que atravessa esquerda e direita, criando um sistema de dependência estatal que perdura há 50 anos após a morte de Perón.
Ideias principais
- A Argentina foi o sétimo país mais rico do mundo em 1910, à frente de Alemanha, França, Itália e Espanha, mas entrou em declínio após a Primeira Guerra Mundial com a perda dos investimentos britânicos e dos mercados europeus na Grande Depressão.
- O peronismo não se encaixa nas categorias tradicionais de esquerda-direita europeias, sendo simultaneamente nacionalista, estatista, corporativista, anticomunista e anti-americano, inspirado no fascismo italiano mas sem ser propriamente uma ditadura.
- Eva Perón tornou-se uma figura quase santa do movimento, sendo adorada tanto por peronistas ortodoxos como por guerrilheiros marxistas nos anos 60 e 70, numa das contradições mais surreais do movimento.
- O modelo económico peronista de protecionismo, estatismo e isolamento dos mercados internacionais criou um Estado Social generoso mas insustentável, gerando déficits crónicos, inflação galopante e empobrecimento relativo da Argentina face ao resto do mundo desenvolvido.
- O peronismo dividiu-se em facções que se combateram violentamente - montoneros marxistas contra ortodoxos anticomunistas, ambos peronistas - culminando na Guerra Suja dos anos 70-80 com milhares de mortos, mas o movimento sobrevive até hoje como principal força política argentina.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado a Juan Domingo Perón e ao modo como a sua figura ajuda a explicar um dos declínios mais desconcertantes do século XX: o de um país que começou o século como uma das nações mais prósperas do mundo e o terminou mergulhado em crises económicas crónicas, instabilidade política e violência. O pretexto é o cinquentenário da morte de Perón, em 1974, mas o episódio começa muito antes, com uma análise do que foi a Argentina antes do peronismo.
Rui Ramos e João Miguel Tavares recordam que a Argentina nasceu como colónia pobre da América do Sul, sem grandes jazidas minerais nem população indígena expressiva. A verdadeira riqueza chegou apenas a partir de meados do século XIX, com o desenvolvimento das pampas para a produção de carne e cereais destinados aos mercados europeus, sobretudo britânicos. Graças à navegação a vapor e aos barcos frigoríficos, o país transformou-se rapidamente: a população disparou com vagas de imigração espanhola e italiana, Buenos Aires triplicou de tamanho em menos de vinte anos, e por volta de 1900 a Argentina era o sétimo país mais rico do mundo, com um produto per capita comparável ao da média da Europa Ocidental. Tudo apontava para que se tornasse os Estados Unidos da América do Sul. O golpe chegou com a Primeira Guerra Mundial, que esgotou os capitais britânicos que sustentavam o investimento argentino, e depois com a Grande Depressão de 1929-1931, que fez colapsar os mercados de exportação e reduziu o valor das exportações argentinas para um terço em apenas três anos. O choque gerou ressentimento contra as elites agrárias que controlavam o sistema político e abriu caminho aos militares como alternativa.
É neste contexto que Perón emerge. Oficial do exército com boa presença e grande facilidade oratória, fascinou-se com o fascismo italiano durante uma viagem à Europa nos anos 1930. Em 1943, integra como ministro do Trabalho uma ditadura militar que propõe uma Argentina radicalmente diferente: industrial, fechada sobre si própria, liberta da influência inglesa e americana, organizada num modelo corporativo inspirado em Mussolini. Perón aproveita o cargo para promover a sindicalização em massa dos trabalhadores, tornando-se o seu grande patrono. Quando, em 1945, pressões internas e americanas o levam à prisão, é Eva Duarte, a sua jovem companheira e futura esposa, quem mobiliza os sindicatos para o libertar. A figura de Evita, locutora de rádio com grande carisma mediático, torna-se inseparável do movimento. Em 1946, Perón ganha as eleições presidenciais com 55% dos votos.
No governo, Perón aprofunda o estatismo: nacionaliza caminhos de ferro e transportes britânicos, aumenta artificialmente os salários, constrói um Estado Social generoso com férias pagas e segurança social, e ergue barreiras protecionistas às importações. O problema é que este edifício foi construído sobre a suposição de que a riqueza continuaria a crescer, mas a Argentina isola-se precisamente quando o resto do mundo cresce através dos mercados internacionais. O PIB per capita argentino, que em 1900 era equivalente ao americano, cai para metade do americano em 1960. Os défices acumulam-se, a inflação torna-se crónica e o Estado só consegue pagar as contas imprimindo dinheiro. Perón, entretanto, acolhe criminosos de guerra nazis, controla progressivamente a rádio e a imprensa e persegue adversários, como Jorge Luís Borges, que é demitido da Biblioteca Nacional. Eva Perón morre em 1952, a Igreja afasta-se, e em 1955 um golpe militar empurra Perón para o exílio.
O que se segue é uma espiral de instabilidade que os apresentadores descrevem como quase surreal. O peronismo é proibido, mas não desaparece. Nos anos 1960, a esquerda universitária adopta Perón como ícone revolucionário, formando os Montoneros, uma guerrilha urbana de classe média que combate ao mesmo tempo que os sindicatos ortodoxos peronistas, anticomunistas. Em 1973, a ditadura militar permite o regresso de Perón, que é eleito presidente aos 78 anos, com a sua nova esposa Isabel como vice-presidente. Morre em julho de 1974; Isabel sucede-lhe, mas é incapaz de conter a violência entre as duas fações peronistas. Em 1976, os militares tomam o poder e conduzem a chamada Guerra Suja, que extermina os Montoneros à custa de milhares de mortos e desaparecidos. O episódio termina sublinhando que o Partido Justicialista, herdeiro do peronismo, continua a ser o maior partido argentino, dividido entre fações de esquerda e de direita que se odeiam mas veneram igualmente Perón, enquanto o sistema económico que ele criou continua a fazer sentir os seus efeitos — e a desafiar quem tenta desmantelá-lo.
Personagens
- Juan Domingo Perón
- Eva Perón
- Isabel Perón
- Jorge Luís Borges
- Benito Mussolini
- Adolf Eichmann
- Josef Mengele
- Che Guevara
- Fidel Castro
- Carlos Menem
- Cristina Fernández de Kirchner
- Javier Milei
- Mao Zedong
Lugares
Épocas
- século XIX
- século XX
- década de 1940
- década de 1950
- década de 1960
- década de 1970
- década de 1980
- década de 1990
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Grande Depressão
Temas
- populismo
- fascismo
- nacionalismo
- economia
- industrialização
- protecionismo
- estatismo
- sindicalismo
- imigração
- ditadura militar
- guerrilha urbana
- terrorismo
- inflação
- declínio económico
- corporativismo
- anticomunismo
- guerra civil
- repressão política
Eventos
- Independência da Argentina
- Grande Depressão
- Julgamentos de Nuremberg
- Guerra Suja
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Suja
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