Nº 6002 de setembro de 202039:24análise histórica
Uma breve história da Festa do Avante!
O episódio analisa a origem e sucesso da Festa do Avante desde 1976, inspirada na Festa do L'Humanité francesa, como estratégia do PCP para se reinventar após o isolamento pós-PREC. A segunda parte centra-se no papel crucial de Juan Carlos I na transição espanhola de 1975-1981, contendo as Forças Armadas franquistas e viabilizando a democratização, ao contrário da revolução portuguesa. Termina com a batalha da Praia da Vitória de 1829 e o papel de Almeida Garrett.
Ideias principais
- A Festa do Avante surgiu em 1976 como forma de o PCP se reinventar após o isolamento político pós-PREC, importando o modelo francês da Festa do L'Humanité para criar uma 'cidade comunista' temporária e atrair não-militantes.
- Juan Carlos foi escolhido sucessor de Franco em 1969 apenas como chefe de Estado (não de governo nem das Forças Armadas), numa solução inicialmente inspirada no modelo português de Salazar, com Carrero Blanco como verdadeiro sucessor até ao seu assassinato pela ETA em 1973.
- O rei Juan Carlos foi essencial na transição democrática espanhola ao conter um exército profundamente franquista e ideológico (muitos veteranos da Guerra Civil), legitimando a democratização e travando o golpe de 23 de fevereiro de 1981 ao retirar-lhe apoio institucional.
- A transição espanhola, embora pacífica, foi mais sangrenta que a revolução portuguesa devido ao terrorismo da ETA e GRAPO contra oficiais do exército, visando provocar uma reação militar que culminou na tentativa de golpe de 1981.
- A vitória liberal na batalha da Praia da Vitória em 11 de agosto de 1829 foi decisiva para as Guerras Liberais, dando aos partidários de D. Maria II a primeira vitória, uma base territorial que não reconhecia D. Miguel e o ponto de partida para a expedição ao Porto em 1832.
Resumo do episódio
O episódio número 60 de *E o Resto é História* abre com a proximidade da Festa do Avante, apresentada como a mais esperada desde a sua edição inaugural em 1976. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se explicar como surgiu este evento, qual a sua inspiração e por que razão nenhum outro partido português conseguiu ou quis fazer algo semelhante.
O ponto de partida é o contexto político em que o Partido Comunista Português se encontrava em 1976: isolado à esquerda, pela extrema-esquerda que o acusava de ter facilitado o desenlace do 25 de Novembro, e à direita, pelo Partido Socialista que desconfiava das suas intenções durante o PREC. A este isolamento somavam-se maus resultados eleitorais — o PCP descera em votos relativamente a 1975, e o seu candidato presidencial, Otávio Pato, ficara atrás de Otelo Saraiva de Carvalho. O partido procurava formas de se reinventar e de escapar ao crescente apagamento político. A Festa do Avante foi uma dessas estratégias. O modelo importado foi o da Fête de l'Humanité, organizada desde os anos 1930 pelo jornal do Partido Comunista Francês nos arredores de Paris, que combinava vários palcos de espectáculos com stands de propaganda e restauração para angariar fundos, atraindo até grandes nomes do rock internacional como os Pink Floyd em 1970. O PCP, apesar de discordar da linha eurocomunista do PCF, adoptou o formato. O evento cumpria várias funções em simultâneo: oferecia aos militantes a sensação de habitarem durante um fim de semana um Portugal já transformado pelo socialismo; funcionava como montra do chamado mundo socialista, com stands de países do bloco soviético e publicações de Moscovo; e servia de vitrina cultural de qualidade — música clássica, jazz, folclore recolhido e trabalhado por nomes como Fernando Lopes Graça —, reflectindo a visão de uma burguesia progressista que sempre esteve na origem da liderança comunista. Com o tempo, o evento ganhou dimensão de festival cultural independente, tornando-se precursor dos grandes festivais de música portugueses, numa época em que praticamente não existia oferta semelhante. Quanto à razão por que nenhum outro partido tentou algo equivalente, os apresentadores sugerem que seria demasiado óbvio imitar o PCP, e que nenhum outro partido poderia contar com o mesmo tipo de disponibilidade e disciplina dos seus militantes.
A segunda parte do episódio centra-se na figura de Juan Carlos e na transição espanhola para a democracia. Rui Ramos explica que em 1969 Franco designou Juan Carlos, e não o seu pai o Conde de Barcelona, como futuro chefe de Estado, por o considerar mais jovem e mais maleável. O regime espanhol parecia caminhar para uma estrutura semelhante à portuguesa, com um rei decorativo e um chefe de governo forte — papel que caberia ao Almirante Carrero Blanco. O assassinato deste pela ETA em Dezembro de 1973 alterou profundamente o equilíbrio de forças, deixando Juan Carlos sem o contrapeso que limitaria a sua margem de acção após a morte de Franco, em Novembro de 1975. O rei aproveitou esse espaço para liderar a transição democrática, pressionando para a legalização do Partido Comunista em 1977, encontrando-se com os líderes socialistas e escolhendo Adolfo Suárez para conduzir as negociações com a oposição. O exército espanhol era profundamente franquista e marcado pela memória da Guerra Civil, o que tornava a tarefa especialmente delicada. O papel de Juan Carlos foi decisivo também na noite do golpe de 23 de Fevereiro de 1981, quando a sua intervenção televisiva retirou legitimidade aos conspiradores e conteve os militares nos quartéis.
O episódio encerra com uma pergunta de um ouvinte sobre a Batalha da Baía da Praia da Vitória, de 11 de Agosto de 1829. Rui Ramos confirma que a vitória foi absolutamente decisiva para o liberalismo português: foi a primeira vitória dos liberais sobre os miguelistas, garantiu uma base territorial a partir da qual se organizou a expedição que desembarcaria no Porto em 1832 e impediu que todo o território português reconhecesse D. Miguel como rei. Quanto à atribuição a Almeida Garrett da mudança dos nomes de Angra e da Vila da Praia, os dados disponíveis apontam para que tenha sido ele a redigir os decretos de Janeiro de 1837, tendo feito lobby junto do governo setembrista de Sá da Bandeira e Passos Manuel — governo ao qual estava próximo — para que fossem atribuídos títulos de distinção às populações da Ilha Terceira.
Personagens
- Álvaro Cunhal
- Fernando Lopes Graça
- Jean Jaurès
- Francisco Franco
- António de Oliveira Salazar
- Juan Carlos I de Espanha
- Afonso XIII de Espanha
- Juan de Bourbon (Conde de Barcelona)
- Almirante Carrero Blanco
- Marcelo Caetano
- Américo Tomás
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Adolfo Suárez
- Santiago Carrillo
- Tejero Molina
- Milans del Bosch
- D. Pedro IV
- D. Miguel I
- D. Maria II
- Almeida Garrett
- Sá da Bandeira
- Passos Manuel
- Duque da Terceira (Conde de Vila Flor)
- Francisco Gomes de Amorim
- Infanta Cristina de Espanha
Lugares
Épocas
- Estado Novo
- Revolução de 1974-1975 (PREC)
- Transição espanhola (1975-1981)
- Guerra Civil Espanhola (1936-1939)
- Primeira Guerra Mundial
- Anos 1960-1970
- Guerra Colonial
- Liberalismo português (século XIX)
- Guerras Liberais
Temas
- comunismo
- festas políticas
- transição democrática
- monarquia
- república
- terrorismo
- golpes de Estado
- exílio
- clandestinidade
- eurocomunismo
- ditadura
- democratização
- nacionalizações
- reforma agrária
- cultura popular
Eventos
- Festa do Avante
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- 25 de Novembro de 1975
- Eleições legislativas de 1976
- Eleições presidenciais de 1976
- Morte de Franco (1975)
- Tentativa de golpe de Estado em Espanha (23 de fevereiro de 1981)
- Batalha da Praia da Vitória (11 de agosto de 1829)
- Revolução de Setembro de 1836
- Queda de Salazar (1968)
- Constituição espanhola de 1978
- Aclamação de D. Miguel (1828)
- Desembarque no Porto (1832)
Guerras e conflitos
- Guerra Civil Espanhola
- Guerras Liberais portuguesas
Livros citados
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