Nº 20728 de junho de 202357:43resposta a ouvintes
Porque é que continuamos a falar do Titanic?
O episódio explora duas questões enviadas por ouvintes: porque é que o Titanic continua a fascinar 111 anos depois do naufrágio, e qual foi a importância de Bismarck no século XIX. O Titanic perdura como história pelos valores da Belle Époque que representa - progresso tecnológico e cavalheirismo - e pelo envolvimento de celebridades. Bismarck, chanceler da Prússia e do Império Alemão durante 28 anos, foi um diplomata pragmático que unificou a Alemanha através de três guerras rápidas e depois manteve a paz europeia até 1914 através de hábil gestão diplomática.
Ideias principais
- O Titanic fascina porque aconteceu em tempo de paz, envolveu celebridades como John Jacob Astor e Benjamin Guggenheim, e teve impacto mediático sem precedentes em 1912, gerando filmes apenas um mês depois do naufrágio.
- A tragédia do Titanic representou os valores centrais da Belle Époque: a fé no progresso tecnológico (um navio que não podia afundar) e o cavalheirismo (75% das mulheres salvaram-se, mas apenas 20% dos homens, incluindo milionários que deram lugar a mulheres pobres).
- Bismarck não era um belicista nem um nacionalista alemão convicto - era acima de tudo um prussiano protestante que usou três guerras curtas (1864, 1866, 1870) apenas como meio diplomático para unificar uma 'pequena Alemanha', deixando a Áustria de fora.
- Apesar de ser visto como conservador, Bismarck foi pragmático e flexível: adotou sufrágio universal em 1871, criou o moderno Estado Social alemão com pensões e seguros na década de 1880, e manteve uma estrutura federal em vez de um Estado centralizado.
- Bismarck conseguiu evitar guerras entre grandes potências durante 44 anos (1871-1914) através de diplomacia incessante, mas a sua demissão por Guilherme II em 1890 e o desmantelamento do seu sistema de alianças isolou a Alemanha e preparou o caminho para a Primeira Guerra Mundial.
Resumo do episódio
Neste episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de um acontecimento recente — o naufrágio do submersível Titan, que implodiu enquanto visitava os destroços do Titanic no Atlântico Norte, matando os cinco ocupantes — para se interrogarem sobre um fenómeno cultural duradouro: porque é que o Titanic continua a fascinar o mundo inteiro mais de um século depois da sua tragédia? A pergunta é tanto mais pertinente quanto outros naufrágios com muito mais vítimas, como o do Wilhelm Gustloff em 1945 ou o do Dona Paz nas Filipinas em 1987, são praticamente desconhecidos do grande público.
Os apresentadores identificam várias razões para a persistência do Titanic na memória colectiva. Em primeiro lugar, o acidente ocorreu em tempo de paz, em 1912, numa época em que grandes desastres marítimos eram raros, e o número de mortos — mais de 1500 — não tinha precedentes para um único acidente. A notícia ocupou imediatamente as primeiras páginas de todos os jornais do mundo ocidental. Em segundo lugar, o navio transportava figuras proeminentes da sociedade americana e europeia, desde milionários como John Jacob Astor e Benjamin Guggenheim até à actriz Dorothy Gibson, que um mês após o naufrágio já escrevera e protagonizara o primeiro filme sobre o desastre, usando as próprias roupas que trajara naquela noite. Em terceiro lugar, o Titanic encarnava os valores e as ansiedades da Belle Époque: era o navio mais luxuoso e tecnologicamente avançado do seu tempo, apresentado como inafundável, e afundou-se na sua viagem inaugural, num choque com um icebergue. Esta derrota do progresso humano perante a natureza já havia sido antecipada, de forma notável, numa novela de 1898 de Morgan Robertson, cujo navio fictício se chamava Titan e naufragava em circunstâncias quase idênticas.
O segundo grande valor que a tragédia ilumina é o cavalheirismo. Na sociedade hierarquizada da época, os homens das classes elevadas tinham a obrigação implícita de proteger os mais vulneráveis. No Titanic, essa norma foi amplamente seguida: 75% das mulheres sobreviveram, mas apenas 20% dos homens, porque estes cederam os lugares nos botes salva-vidas. Curiosamente, morreram mais homens da primeira classe do que mulheres da terceira classe, e o próprio capitão Edward Smith terá permanecido na ponte de comando até afundar com o navio. Estes ingredientes — o progresso desafiado, o heroísmo, a desigualdade social, a despedida — tornaram o Titanic uma história arquetípica, explorada em dezenas de filmes ao longo de décadas.
A segunda metade do episódio dedica-se a Otto von Bismarck, a pedido de um ouvinte que perguntava sobre o seu peso histórico comparado ao de Metternich. Rui Ramos começa por desfazer várias ideias feitas sobre o chanceler prussiano: ao contrário do que a sua imagem de "chanceler de ferro" sugere, Bismarck não era um aristocrata rural rude, mas um homem de corte educado em Berlim; não era um conservador por convicção de origem, mas por aprendizagem, após o choque das revoluções de 1848; não era um nacionalista alemão, mas um prussiano protestante que desconfiava profundamente dos alemães católicos do Sul; e não era um belicista, apesar das três guerras rápidas — contra a Dinamarca em 1864, contra a Áustria em 1866 e contra a França em 1870-71 — que conduziram à unificação alemã.
Após 1871, Bismarck governou a Alemanha durante quase vinte anos sem recorrer à guerra, construindo um intrincado sistema de alianças diplomáticas — a Liga dos Três Imperadores, a Tripla Aliança — para posicionar a nova Alemanha como árbitro do equilíbrio europeu, papel semelhante ao que Metternich desempenhara com a Áustria. Também à semelhança de Metternich, era profundamente céptico quanto à capacidade humana de controlar os acontecimentos. Foi Bismarck quem introduziu o sufrágio universal no Reichstag e quem criou as primeiras bases do Estado social moderno — pensões, cuidados médicos, subsídio de desemprego —, não por convicção ideológica, mas por pragmatismo. Em 1890, o jovem Kaiser Guilherme II demitiu-o, desmantelou o sistema de alianças e conduziu a Alemanha para o isolamento que desembocaria na Primeira Guerra Mundial — uma catástrofe que Bismarck, segundo os apresentadores, teria certamente tentado evitar.
Personagens
- James Cameron
- Wilhelm Gustloff
- Dona Paz
- John Jacob Astor
- Benjamin Guggenheim
- Dorothy Gibson
- Jules Verne
- Edward Smith
- Eric Kissinger
- Cardeal Richelieu
- Metternich
- Otto von Bismarck
- Frederico II da Prússia
- Guilherme II
- Adolf Hitler
- Richard Wagner
- Luís XIV
- Napoleão
- Lutero
- Hegel
- Clausewitz
- Alexander Dumas
- Shakespeare
- Rafael Nadal
- Taylor Swift
- Elon Musk
- Leonardo DiCaprio
Lugares
Épocas
- século XIX
- século XX
- Belle Époque
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- século XVIII
Temas
- progresso
- tecnologia
- cavalheirismo
- classe social
- náufragos
- diplomacia
- guerra
- nacionalismo
- colonialismo
- protestantismo
- catolicismo
- unificação alemã
- industrialização
- conservadorismo
- federalismo
- política social
Eventos
- naufrágio do Titanic
- implosão da cápsula Titan
- Conferência de Berlim
- Partilha de África
- bombardeamento de Dresden
- Revoluções de 1848
- Kulturkampf
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra de 1864 (Prússia-Dinamarca)
- Guerra de 1866 (Prússia-Áustria)
- Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)
Livros citados
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