Nº 5712 de agosto de 202038:29análise histórica
Salazar, Cunhal e Soares segundo António Barreto
António Barreto discute o seu livro sobre as três figuras que considera mais influentes no século XX português: Salazar, Cunhal e Soares. Analisa a longevidade do Estado Novo e o seu súbito colapso, a ortodoxia comunista de Cunhal e a sua lealdade a Moscovo, e a intuição política de Mário Soares que o levou a escolher sempre a liberdade e as eleições como instrumento político fundamental.
Ideias principais
- O regime salazarista durou mais de 40 anos mas desapareceu sem deixar herdeiros políticos assumidos, ao contrário da Monarquia ou da Primeira República, devido ao esgotamento do modelo e à emergência de uma classe média que queria mais liberdade.
- Álvaro Cunhal nunca foi um fantoche de Moscovo mas também nunca adoptou o eurocomunismo, consolidando-se como 'cardeal' do comunismo internacional sobretudo após apoiar publicamente a invasão da Checoslováquia em 1968.
- Mário Soares distinguiu-se por ter apenas um princípio político verdadeiro - a liberdade - porque sabia que eleições eram o seu instrumento de poder, ao contrário de Salazar e Cunhal cujos auges políticos resultaram de golpes militares.
- O maior êxito de Cunhal foi criar uma ortodoxia cultural e intelectual comunista em Portugal que perdura até hoje, conferindo ao PCP uma influência desproporcional aos seus 5-6% eleitorais.
- As escolhas políticas de Mário Soares - resistir a Cunhal em 1975, aceitar a austeridade do FMI em 1983, dissolver a Assembleia em 1987 - revelam mais intuição e faro político do que princípios ideológicos rígidos, tendo sempre coincidido com o caminho da história.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares recebem o sociólogo e ex-ministro António Barreto, cuja mais recente obra, *Três Retratos*, publicada pela Relógio d'Água, traça os perfis de Salazar, Cunhal e Soares como os três portugueses que mais moldaram a política do século XX em Portugal. A conversa começa com um breve desvio pelo século XIX: questionado sobre quais figuras escolheria para um livro equivalente sobre essa época, Barreto aponta Palmela, Rodrigo da Fonseca e Fontes Pereira de Melo, valorizando neles a capacidade de construir consensos duradouros em vez de apostarem na rutura — ao contrário de figuras como Saldanha ou Costa Cabral. Dom Pedro IV merece menção especial pelo seu currículo extraordinário, mas fica de fora por não ter governado o suficiente para consolidar o seu legado.
A discussão central arranca com Salazar. João Miguel Tavares coloca a questão de fundo: o que é mais significativo — os quarenta anos de duração do regime ou o facto de este ter desaparecido, segundo o comentador inglês Bernard Levin, quase de um dia para o outro em abril de 1974, sem deixar herdeiros políticos organizados? Barreto responde que o fenómeno central é o esgotamento. O salazarismo teve sempre algo a oferecer: primeiro, uma ordem em contraste com a turbulência da Primeira República; depois, o mito da neutralidade nas guerras; a seguir, uma abertura económica controlada à EFTA e ao investimento estrangeiro, que gerou os primeiros embriões de classe média. Por fim, a guerra colonial tornou-se o único produto disponível — e era um beco sem saída. Quando o regime deixou de ter algo a dar, desapareceu sem resistência. Barreto desmonta também o mito do Salazar ruralista e anticapitalista: a sua obsessão não era o campo, mas o controlo absoluto sobre todos os agentes económicos e políticos.
Sobre Álvaro Cunhal, Barreto é deliberadamente severo. Recusa a imagem do estadista coerente e íntegro que seduziu parte da direita portuguesa — nomeadamente jovens jornalistas nos anos noventa — e afirma que Cunhal teria sido um ditador se as circunstâncias o tivessem permitido. A sua lealdade a Moscovo foi, acima de tudo, estratégica: enquanto dela dependia a sua sobrevivência, cumpriu-a rigorosamente, como demonstrou ao ser o primeiro líder comunista não soviético a apoiar publicamente a invasão da Checoslováquia em 1968. Barreto não o reduz, porém, a um simples fantoche: Cunhal soube construir uma posição própria dentro da galáxia soviética, tornando-se uma espécie de cardeal influente nesse consistório. O interesse de Moscovo em Portugal era real, mas limitado — prendia-se sobretudo com Angola e com a perturbação da NATO —, e depois da independência angolana e do 25 de Novembro de 1975 o interesse soviético esfriou. O legado mais duradouro de Cunhal foi, na leitura de Barreto, a criação de uma ortodoxia cultural e sindical que ainda hoje confere ao PCP uma influência desproporcional à sua representação eleitoral.
A figura de Mário Soares é apresentada como a mais singular dos três precisamente porque foi o único que colocou as eleições e a liberdade acima de qualquer outro instrumento político. Barreto argumenta que Soares tinha essencialmente um único princípio — a liberdade —, mas que esse princípio coincidia com o seu método de sobrevivência política, já que, ao contrário de Salazar e Cunhal, não podia apoiar-se em aparelhos militares, eclesiásticos ou internacionais. As suas grandes escolhas — manter-se na oposição ao marcelismo, enfrentar o PCP em 1975, aceitar a austeridade do FMI em 1983, dissolver a Assembleia em 1987 — parecem, em retrospetiva, sempre ter ido no sentido certo da história, fruto de uma combinação de intuição política apurada e de adequação ao seu próprio método. O único erro grave que Barreto lhe aponta foi a candidatura eleitoral de 2005 e o apoio a José Sócrates, que interpreta como uma cedência à vaidade. A conversa termina com Barreto a revelar que Soares resumia as suas críticas aos outros três grandes nomes da política portuguesa em termos curiosamente pessoais e domésticos, avaliando homens pelo gosto estético, pelas bibliotecas e pelos hábitos à mesa.
Personagens
- António Barreto
- Salazar
- Álvaro Cunhal
- Mário Soares
- Palmela
- Rodrigo da Fonseca Magalhães
- Fontes Pereira de Melo
- Saldanha
- Costa Cabral
- D. Pedro IV
- D. Pedro V
- Bernard Levin
- Marcelo Caetano
- Manoel Lucena
- Hitler
- Mussolini
- Franco
- Tito
- Berlinguer
- Santiago Carrilho
- Jorge Marché
- Soslof
- Panamareto
- Mitterrand
- Jean Daniel
- De Gaulle
- José Sócrates
- Carlos Costa
- Teixeira dos Santos
- Passos Coelho
- Cavaco Silva
- Paulo Portas
- Miguel Esteves Cardoso
Lugares
Épocas
- século XIX
- século XX
- Primeira República
- Estado Novo
- 25 de Abril de 1974
- Verão Quente de 1975
- anos 1960
- anos 1970
- anos 1980
Temas
- ditadura
- democracia
- comunismo
- colonialismo
- descolonização
- guerra colonial
- revolução
- eleições
- política económica
- eurocomunismo
- Guerra Fria
- liberalismo
- corporativismo
Eventos
- 28 de Maio de 1926
- 25 de Abril de 1974
- 25 de Novembro de 1975
- 11 de Novembro de 1975
- Desembarque do Mindelo
- independência de Angola
- invasão da Checoslováquia
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil de Espanha
- Guerra Colonial
- Guerra de Angola
Livros citados
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