Nº 13909 de março de 202250:41resposta a ouvintes
Ucrânia: as ligações entre nacionalismo e nazismo
Episódio dedicado às relações históricas entre nacionalismo ucraniano e nazismo, explorando o massacre de Babi Yar (1941), a figura controversa de Stepan Bandera e a instrumentalização desta história pela propaganda russa. Analisa também a Guerra da Crimeia (1853-1856) como origem das tensões entre Rússia e Ocidente, mostrando como a derrota russa moldou a identidade imperial russa e a sua percepção de ameaça ocidental.
Ideias principais
- O massacre de Babi Yar em setembro de 1941 resultou no assassinato de 33 mil judeus de Kiev em apenas dois dias, executados a tiro numa ravina, demonstrando que o extermínio em massa de judeus começou antes de Auschwitz e dos campos de concentração.
- Stepan Bandera representa a complexidade do nacionalismo ucraniano: colaborou inicialmente com os nazis contra os soviéticos, foi depois preso pelos próprios nazis por declarar independência, e acabou por combater tanto alemães como soviéticos, não podendo ser simplesmente rotulado como nazi.
- O regime soviético praticou antissemitismo sistemático após a Segunda Guerra Mundial, recusando-se a reconhecer a especificidade do holocausto judeu e impedindo memoriais que identificassem as vítimas como judeus até ao fim da URSS em 1991.
- A Guerra da Crimeia (1853-1856) marcou a transformação da Rússia de aliada conservadora da Europa para ameaça asiática e despótica, criando o ressentimento russo contra o Ocidente que persiste até hoje e alimenta a narrativa de Putin de uma Rússia perseguida.
- A história europeia do século XIX e XX demonstra que colaboração com regimes totalitários não define identidades nacionais: a própria União Soviética colaborou com a Alemanha Nazi (1939-1941), tal como a Finlândia, sem que isso as torne estados nazis.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a perguntas de ouvintes sobre dois temas interligados pela actualidade da guerra na Ucrânia: a relação histórica entre o nacionalismo ucraniano e o nazismo, e a Guerra da Crimeia do século XIX. O ponto de partida é a retórica de Vladimir Putin sobre a "desnazificação" da Ucrânia, que os apresentadores procuram avaliar à luz da história.
A primeira parte é dedicada ao massacre de Babi Yar, ocorrido em setembro de 1941, poucos dias após a tomada de Kiev pelas forças alemãs. Depois de uma explosão no quartel-general alemão atribuída aos judeus da cidade, a população judaica foi convocada para um cemitério próximo de uma ravina, sob pretexto de deportação. Em dois dias, cerca de 33 mil pessoas foram assassinadas a tiro e enterradas naquela vala comum. Rui Ramos recorre ao diário de uma bibliotecária russa que viveu a ocupação de Kiev para ilustrar como a notícia do massacre circulou entre os habitantes da cidade. O episódio aborda também o silêncio soviético em torno deste crime: o regime de Estaline, que cultivava o seu próprio antissemitismo, recusava reconhecer que as vítimas eram judeus, preferindo falar de "cidadãos soviéticos". Só após o fim da União Soviética, em 1991, foi erguido na Ucrânia independente um monumento que identifica as vítimas como judeus.
A segunda parte centra-se em Stepan Bandera e na complexa relação entre o nacionalismo ucraniano e os nazis. Rui Ramos explica que, quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, foi recebida como libertadora por muitos ucranianos, que tinham sofrido a fome da colectivização soviética e as repressões do regime de Moscovo. Os nacionalistas ucranianos colaboraram inicialmente com os alemães na esperança de obter a independência, mas os nazis nunca tiveram esse objectivo: pretendiam explorar os recursos do território e colonizá-lo com alemães. Bandera proclamou a independência ucraniana, foi preso pelos próprios nazis, libertado em 1944 para travar o avanço soviético, e acabou assassinado pelo KGB em 1959. Entre 1944 e 1945, os nacionalistas ucranianos combateram simultaneamente alemães, soviéticos e polacos, num contexto de limpezas étnicas mútuas. Os apresentadores sublinham que a colaboração com a Alemanha nazi não foi exclusiva dos ucranianos — a própria União Soviética assinou um pacto com Hitler em 1939 e apoiou o esforço de guerra alemão até 1941 —, e que equiparar o nacionalismo ucraniano ao nazismo é um recurso de propaganda herdado da retórica soviética.
A terceira parte responde a uma pergunta sobre a Guerra da Crimeia de 1853-1856. Rui Ramos contextualiza o conflito no quadro da decadência do Império Otomano e da ambição russa de se tornar protetora dos cristãos ortodoxos sob domínio otomano e herdeira de Constantinopla. Perante o avanço russo, França e Grã-Bretanha intervieram militarmente para impedir que o equilíbrio europeu fosse perturbado, sitiando durante um ano a fortaleza de Sebastopol na Crimeia até a conquistarem em 1855. A guerra foi um marco histórico por outras razões: foi o primeiro conflito acompanhado em tempo quase real graças ao telégrafo eléctrico, o primeiro a ser fotografado e o primeiro a ter correspondentes de guerra. A derrota russa teve consequências internas — abolição da servidão, venda do Alasca aos Estados Unidos — e externas: a Rússia começou a ser vista pelas elites ocidentais não como garante da ordem europeia mas como uma potência asiática e despótica, exterior à civilização europeia. Por seu lado, a Rússia começou a desenvolver um sentimento de ressentimento e de cerco pelo Ocidente. Os apresentadores concluem que estas desconfianças mútuas, aprofundadas ao longo do século XIX, constituem um pano de fundo relevante para compreender a actual tensão entre a Rússia e o mundo ocidental.
Personagens
- Vladimir Putin
- Volodymyr Zelensky
- Stepan Bandera
- Reinhardt Heydrich
- Irina Khoroshunova
- Yevgeny Yevtushenko
- Joseph Stalin
- Nikita Khrushchev
- Ilia Ehrenburg
- Vassily Grossman
- Timothy Snyder
- Napoleão Bonaparte
- Winston Churchill
- Franklin D. Roosevelt
Lugares
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- século XIX
- década de 1930
- década de 1940
- Guerra Fria
- século XVII
- século XVIII
- anos 1820-1840
- anos 1850
- 1914-1918
Temas
- nazismo
- nacionalismo
- holocausto
- antissemitismo
- massacres
- colaboracionismo
- propaganda
- ocupação militar
- limpeza étnica
- imperialismo
- guerra
- diplomacia
- alianças militares
- expansionismo
- identidade nacional
- revolução
- comunismo
- autocracia
- colonização
Eventos
- Massacre de Babi Yar
- Conferência de Wannsee
- Operação Barbarossa
- Holodomor
- Revolução Bolchevique
- Partilha da Polónia
- Santa Aliança
- Revoluções de 1848
- Unificação da Itália
- Unificação da Alemanha
- Venda do Alasca
- Primeira Guerra Mundial
Guerras e conflitos
- Invasão da União Soviética (1941)
- Guerra da Crimeia (1853-1856)
- Guerras Napoleónicas
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
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