Nº 20331 de maio de 20231h02efeméride
A derrota de Rommel e os 100 anos de Kissinger
O episódio analisa os 80 anos da rendição do Afrika Korps em maio de 1943 e os 100 anos de Henry Kissinger. A campanha do Norte de África revelou as limitações alemãs em operações combinadas e culminou numa derrota tão grave quanto Estalinegrado. Kissinger é apresentado como intelectual-estadista que praticou uma real-politik inspirada em Metternich, criando sistemas de equilíbrio para conter adversários sem confronto total, com implicações directas em Portugal no pós-25 de Abril.
Ideias principais
- A derrota da Tunísia em maio de 1943 foi mais grave para a Alemanha que Estalinegrado, pois colocou os Aliados a 190 km da Sicília e causou perdas irreparáveis de material, incluindo 40% da força aérea operacional alemã.
- A campanha do Norte de África expôs os limites estruturais do poder alemão em projetar força fora da Europa continental, ajudando a explicar porque Hitler optou pela invasão terrestre da Rússia em vez de focar no Mediterrâneo.
- Henry Kissinger construiu um modelo de estadista inspirado em Metternich do século XIX, mas com uma diferença crucial: enquanto Metternich escondia a fraqueza austríaca, Kissinger escondia a crescente força americana num sistema de equilíbrios.
- A estratégia de Kissinger para a Guerra Fria rejeitava tanto a erradicação do mal pela força como o idealismo moral, propondo conter adversários através de sistemas diplomáticos que apelassem aos seus interesses, especialmente evitando confronto nuclear.
- Portugal em 1974-75 serviu involuntariamente como 'vacina' de Kissinger contra o eurocomunismo, provando aos europeus que partidos comunistas no governo tentariam tomar o poder, mas a resistência portuguesa contrariou a visão determinista de que o país cairia para o comunismo.
Resumo do episódio
Este episódio debruça-se sobre dois temas distintos: o 80.º aniversário da rendição do Afrika Korps no Norte de África, em maio de 1943, e o centenário de Henry Kissinger, nascido a 27 de maio de 1923. Rui Ramos e João Miguel Tavares começam pela campanha norte-africana, procurando explicar a sua importância estratégica e o que representa na economia geral da Segunda Guerra Mundial.
A guerra no deserto ocidental, entre o Egito e a Líbia, opôs inicialmente britânicos e italianos a partir do verão de 1940, com os alemães a intervir em apoio de Mussolini no início de 1941, enviando o Afrika Korps sob o comando de Rommel. O terreno — um deserto de cerca de 680 mil quilómetros quadrados, sem referências geográficas e extremamente desgastante para o material — ditou um padrão peculiar de combate: o lado que avançava esticava as suas linhas logísticas até ao ponto de ruptura, tornando-se vulnerável ao contra-ataque adversário. Tratou-se de uma guerra predominantemente entre militares, com escassa população civil envolvida e uma mortalidade relativamente baixa em proporção ao número de combatentes — os italianos, por exemplo, tiveram 620 mil baixas mas apenas 32 mil mortos, sendo a maioria prisioneiros.
Os apresentadores sublinham que este teatro de operações tende a ser subestimado face à frente leste, mas argumentam que a sua importância é considerável por várias razões. Em primeiro lugar, expôs os limites da projeção militar alemã: a Alemanha era incapaz de sustentar operações combinadas de grande envergadura — navais, aéreas e terrestres — a grandes distâncias, como a Batalha de Inglaterra já havia evidenciado. Havia dias em que o Afrika Korps dispunha de apenas um voo por razões de escassez de combustível e de apenas trinta tanques operacionais. Em segundo lugar, revelou a fragilidade italiana como potência independente, obrigando os alemães a acorrer em seu auxílio em múltiplas frentes do Mediterrâneo. Em terceiro lugar, a fase final da campanha, centrada na Tunísia, foi decisiva: a rendição de mais de 300 mil soldados do Eixo — números comparáveis a Estalinhrado — abriu caminho direto à invasão da Sicília, apenas a 190 quilómetros de distância. A perda da Tunísia foi, segundo o próprio Goebbels, mais grave do que Estalinhrado, não só pelas baixas humanas, mas também pela destruição de cerca de dois mil aviões, equivalente a 40% da força aérea operacional alemã. A este cenário somava-se a vantagem decisiva e secreta dos Aliados: a quebra dos códigos cifrados alemães e italianos, que lhes permitia conhecer antecipadamente os planos do inimigo.
A segunda parte do episódio é dedicada a Henry Kissinger. Rui Ramos procura explicar por que razão esta figura continua a fascinar décadas após ter deixado o poder. Nascido Heinz Kissinger, na Alemanha, em 1923, fugiu com a família ao nazismo em 1938 e percorreu uma trajetória improvável até se tornar conselheiro de segurança nacional de Nixon e, a partir de 1973, Secretário de Estado. O seu paradoxo central é ser um intelectual académico, formado em Harvard, que na política revelou maior sentido prático e ceticismo do que os próprios políticos profissionais. A sua tese de doutoramento sobre o Congresso de Viena e figuras como Metternich moldou a sua visão do mundo: ao contrário de muitos responsáveis americanos, que acreditavam que os Estados Unidos deviam erradicar o mal pela força ou pela superioridade moral, Kissinger defendia a construção de um sistema estável onde o mal existisse mas estivesse contido, evitando acima de tudo a guerra nuclear. O seu tratamento do Vietname — a retirada americana compensada pela aproximação à China, de modo a limitar a influência soviética — ilustra esta lógica de equilíbrios. Neil Ferguson, o seu biógrafo, intitulou o primeiro volume da sua biografia "Kissinger, o Idealista", salientando o mesmo paradoxo que os apresentadores exploram.
Quanto a Portugal, Kissinger nunca atribuiu grande importância ao país em si. A sua preocupação central eram a França e a Itália, onde o eurocomunismo ameaçava reintroduzir partidos comunistas em governos da NATO. O 25 de Abril tornou Portugal útil como argumento: o comportamento do Partido Comunista Português, que, mal entrou no governo, procurou infiltrar o Estado, parecia confirmar que os comunistas eram sempre comunistas. Daí a chamada "tese da vacina" — deixar que o caso português servisse de advertência à Europa Ocidental. Contudo, os apresentadores concluem que Kissinger subestimou a realidade portuguesa: a sociedade portuguesa de meados dos anos 70, já parcialmente integrada no mundo de consumo europeu, com uma Igreja influente e um Partido Comunista que não ia além dos 12% nas eleições de abril de 1975, não estava disposta a servir de cobaia. A resistência interna ao comunismo foi real e eficaz, e o seu efeito no resto da Europa — tornando os partidos socialistas e sociais-democratas mais desconfiados dos seus congéneres comunistas — acabou por ser, à sua maneira, o resultado que Kissinger proclamou ter desejado desde o início.
Personagens
- Erwin Rommel
- Bernard Montgomery
- Benito Mussolini
- Adolf Hitler
- Winston Churchill
- Joseph Stalin
- Joseph Goebbels
- Henry Kissinger
- Richard Nixon
- Gerald Ford
- George Shultz
- Ronald Reagan
- John Kenneth Galbraith
- Niall Ferguson
- Oriana Fallaci
- Klemens von Metternich
- Castlereagh
- Napoleão
- Alexandre I da Rússia
- Mikhail Gorbachev
- António de Spínola
- Mário Soares
- Álvaro Cunhal
- Frank Carlucci
- Kerensky
Lugares
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- pós-Segunda Guerra Mundial
- século XIX
- anos 60
- anos 70
- anos 80
- guerras napoleónicas
- Estado Novo
Temas
- guerra
- diplomacia
- estratégia militar
- política externa
- comunismo
- nazismo
- totalitarismo
- colonialismo
- descolonização
- armas nucleares
- revolução
- democracia
Eventos
- Batalha de El Alamein
- rendição do Afrika Korps
- invasão da Sicília
- Batalha de Estalinegrado
- Batalha de Kursk
- Batalha de Inglaterra
- Congresso de Viena
- desembarque na Normandia
- 25 de Abril
- Holocausto
- Revolução Francesa
- guerra de independência dos Estados Unidos
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- campanha do Norte de África
- guerra do Vietname
- guerra do Iraque
- guerra da Ucrânia
Livros citados
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