Nº 16431 de agosto de 202250:25resposta a ouvintes
As séries sobre a Idade Média são realistas?
Episódio dedicado a desconstruir mitos sobre a Idade Média perpetuados por séries e filmes, respondendo a oito perguntas de um ouvinte. Rui Ramos analisa o realismo das representações da guerra medieval, vida quotidiana, sexualidade e festividades, confrontando a ficção cinematográfica com as fontes históricas disponíveis sobre os séculos XI a XV na Europa Ocidental.
Ideias principais
- As batalhas campais eram muito raras na Idade Média; a guerra consistia principalmente em cercos, devastações e pilhagens de territórios inimigos, numa lógica de enfraquecer economicamente o adversário
- Os números de combatentes nas crónicas medievais eram frequentemente inflacionados com propósito simbólico, para demonstrar a grandeza dos vencedores ou o favor divino numa vitória contra forças superiores
- A carnificina nas batalhas era limitada ao momento do choque frontal direto (a 'melê'), que durava pouco tempo; depois da derrota do adversário, a prioridade era fazer prisioneiros valiosos para resgate, não exterminar
- A vida urbana medieval era mais animada e complexa do que se imagina, com inúmeras tabernas, lojas, mercados e festas religiosas que incluíam dimensões lúdicas e transgressivas como o Carnaval
- A sexualidade medieval não era nem totalmente reprimida nem totalmente libertina, mas complexa como hoje, com a Igreja medieval a introduzir paradoxalmente elementos de liberdade ao enfatizar o consentimento mútuo, especialmente das mulheres
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* tem um formato invulgar: em vez de explorar um único tema em profundidade, Rui Ramos responde a oito perguntas enviadas pelo ouvinte Nuno Leitão, todas centradas na mesma questão de fundo — até que ponto as séries e filmes sobre a Idade Média, como *Guerra dos Tronos*, *Vikings* ou *The Last Kingdom*, correspondem à realidade histórica. O historiador serve-se das perguntas como ponto de partida para desmistificar ideias feitas sobre o período que vai, grosso modo, do século XI ao século XV, aquilo a que os especialistas chamam a Baixa Idade Média.
A conversa começa pelos exércitos. Rui Ramos explica que os números astronómicos citados pelas crónicas medievais devem ser encarados com desconfiança, pois cumpriam uma função simbólica — engrandecer o vencedor ou invocar o favor divino — e não informativa. Manter grandes contingentes reunidos era logisticamente muito difícil: o abastecimento dependia da pilhagem e das compras forçadas nos territórios por onde se passava, e a acumulação de pessoas gerava condições propícias às epidemias, como a peste que destruiu o exército castelhano durante o Cerco de Lisboa de 1384. No ecrã, os exércitos crescem graças aos efeitos digitais; na realidade medieval, encolhiam pela doença e pela fome.
Sobre a violência das batalhas, o historiador esclarece que o confronto corpo a corpo — a chamada *melê* — era apenas uma fase curta e tardia do combate, precedida por trocas de projécteis à distância. Além disso, a batalha campal era um evento raro; as formas de guerra mais comuns eram o cerco de cidades e castelos e as devastações do território inimigo, uma estratégia deliberada para enfraquecer o adversário sem o risco imprevisível do choque frontal. Quanto às baixas, o objetivo não era exterminar o inimigo: capturar combatentes de elevada posição social era lucrativo, pois existiam circuitos estabelecidos de resgate e troca de prisioneiros. Os mortos dos vencidos eram despojados de tudo o que tivessem de valor e sepultados em valas comuns, como sugerem as escavações realizadas em Aljubarrota.
A pilhagem e os abusos sobre as populações civis eram, de facto, frequentes, mas Rui Ramos contextualiza-os: resultavam tanto da lógica da devastação estratégica como da dificuldade de disciplinar exércitos compostos por mercenários, um problema que ainda afligia o Duque de Alba em 1580, quando entrou em Portugal. As leis da guerra chegavam mesmo a sancionar o saque de cidades que resistissem até ao limite — um direito exercido durante três dias pelos sitiantes vitoriosos.
As perguntas sobre a vida quotidiana oferecem uma imagem mais surpreendente. O historiador desmonta a ideia de uma Idade Média sombria e imóvel: as cidades medievais tinham lojas, tabernas e mercados animados; havia festas, bailes e carnaval integrados no calendário religioso, porque naquela época o sagrado e o profano não estavam separados como hoje; e as pessoas circulavam mais do que se supõe — mercadores, peregrinos, trabalhadores à procura de emprego. Sobre a noite, Rui Ramos menciona a hipótese historiográfica dos "dois sonos", segundo a qual as pessoas se deitavam cedo, acordavam a meio da noite para desenvolver alguma actividade e voltavam a dormir, o que relativiza a ideia de uma noite medieval de completo silêncio e reclusão.
Personagens
- Nuno Leitão
- Fernão Lopes
- D. João I de Castela
- Júlio César
- Augusto
- Pompeu
- Filipe II
- D. Sebastião
- Duque de Alba
- Iria Gonçalves
- Giovanni Boccaccio
- Geoffrey Chaucer
Lugares
- Europa Ocidental
- Portugal
- Castela
- Inglaterra
- Suíça
- Itália
- Flandres
- Norte da África
- Constantinopla
- Península Ibérica
Épocas
- Idade Média
- Alta Idade Média
- Baixa Idade Média
- século V
- século VI
- século XI
- século XII
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XIX
- século XX
- Antiguidade
Temas
- guerra medieval
- táticas militares
- batalhas
- vida quotidiana
- religião
- sexualidade
- comércio
- nobreza
- Igreja
- cultura
- literatura
- prostituição
- mercenários
- cercos
- pilhagem
- cavalaria
Eventos
- Batalha de Aljubarrota
- Cerco de Lisboa de 1384
- Batalha de Waterloo
- Batalha de Alcácer-Quibir
- Ocupação de Portugal em 1580
- Queda de Constantinopla
- Gripe Espanhola de 1918
Guerras e conflitos
- guerras medievais
- guerra em Portugal contra Castela
Livros citados
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