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Nº 37806 de outubro de 202654:23efeméride

Francisco de Assis, o santo que morreu há 800 anos

Episódio dedicado aos 800 anos da morte de São Francisco de Assis (1226), explorando como este santo italiano fundou a Ordem Franciscana e revolucionou o cristianismo medieval através da pobreza voluntária, pregação universal e amor fraterno a todas as criaturas. Os apresentadores explicam o contexto de prosperidade e renovação espiritual dos séculos XII-XIII, a influência franciscana na expansão portuguesa e o legado duradouro deste movimento que refundou o cristianismo, mantendo-se relevante até aos dias de hoje.

Ideias principais

  1. São Francisco de Assis foi canonizado apenas dois anos após a sua morte em 1226, fundando um movimento que mudou profundamente a Igreja Católica e a cultura secular europeia a partir do século XIII.
  2. O historiador Jaime Cortesão defendeu que os descobrimentos portugueses foram determinados pelo impulso místico franciscano, tese controversa mas que sublinha a importância da ordem em Portugal, onde Santo António de Lisboa foi um dos primeiros companheiros de São Francisco.
  3. Os séculos XII e XIII foram períodos de renascimento económico, intelectual e espiritual na Europa, com crescimento urbano, fundação de universidades, construção de catedrais góticas e movimentos de renovação religiosa que incluíram tanto o franciscanismo como heresias condenadas pela Igreja.
  4. São Francisco revolucionou o cristianismo ao propor o regresso à vida apostólica original através da pobreza radical, pregação teatral e poética dirigida a todos (fiéis e infiéis), e fraternidade universal com todas as criaturas, tornando-se 'o jogral de Deus'.
  5. O legado franciscano mantém-se vivo na cultura secular moderna, com historiadores como George Duby afirmando que São Francisco refundou o cristianismo e que a forma como hoje olhamos para esta religião é produto da sua influência, mesmo entre não crentes.

Resumo do episódio

Este episódio de "E o Resto é História" é dedicado a São Francisco de Assis, por ocasião dos 800 anos da sua morte, ocorrida a 3 de outubro de 1226. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se explicar por que razão esta figura, nascida em Assis por volta de 1181 ou 1182 e falecida apenas aos 45 anos, marcou de forma tão profunda a história europeia e mundial, muito para além do domínio estritamente religioso.

Para compreender Francisco, os apresentadores sublinham a importância do contexto histórico. Os séculos XII e XIII foram, contrariamente ao que uma visão simplificada da Idade Média sugere, uma época de grande dinamismo na Europa Ocidental: crescimento demográfico, inovação agrícola, expansão urbana, fundação das primeiras universidades e construção das grandes catedrais góticas. É neste ambiente de prosperidade e efervescência intelectual e espiritual que surgem os movimentos de renovação religiosa. Os próprios papas — em especial Gregório VII e Inocêncio III — promoviam a ideia de um regresso à vida apostólica primitiva, ao modelo de Cristo e dos seus discípulos. Este apelo suscitou múltiplas respostas em toda a Europa, algumas que a Igreja viria a condenar como heréticas, e outras que seriam absorvidas e institucionalizadas.

Francisco era filho de um comerciante de sedas abastado e aspirava, em jovem, à vida de cavaleiro. Após envolver-se em conflitos militares e ser feito prisioneiro em Perugia em 1202, foi progressivamente abandonando essas ambições. O episódio decisivo da sua conversão é habitualmente situado por volta de 1205: ao beijar um leproso — gesto que contrariava todos os seus instintos e preconceitos de classe —, Francisco experimentou uma libertação interior que o conduziu ao despojamento total de bens e ao início de uma vida de pobreza e pregação. Reuniu em torno de si um grupo de companheiros — significativamente doze, evocando os apóstolos — e estabeleceu-se na Porciúncula, perto de Assis. Em 1210, o Papa Inocêncio III aprovou a sua regra de vida, dando origem à Ordem dos Frades Menores, os franciscanos.

O núcleo da mensagem de Francisco era a imitação radical de Cristo: pobreza absoluta, trabalho manual, pregação a todos — crentes e não crentes —, e uma visão da natureza como criação divina a ser amada e respeitada. O seu Cântico do Irmão Sol, de 1224, celebra o sol, a lua, o vento e até a morte como irmãos e irmãs. Os apresentadores recordam episódios da lenda franciscana, como a pregação aos pássaros e o amansamento do lobo de Gúbio, e assinalam que Francisco popularizou o presépio com animais como forma de tornar o Natal uma experiência de toda a criação. Em 1219, Francisco viajou até ao Egito para tentar converter o sultão, pacificamente, durante a Quinta Cruzada — gesto que sintetiza a sua visão de uma evangelização pela palavra e pelo exemplo, não pela força. Por volta de 1224, terá recebido os estigmas de Cristo. Morreu em 1226 e foi canonizado apenas dois anos depois.

Os apresentadores destacam a rapidez com que o movimento franciscano se expandiu pela Europa, chegando a Portugal já em 1217, e discutem a figura de Santo António, nascido Fernando Martins de Bulhões em Lisboa em 1190. Após o contacto com franciscanos que passaram por Coimbra a caminho de Marrocos, onde foram martirizados, Fernando aderiu à ordem e foi um dos primeiros companheiros de Francisco em Itália, tornando-se um pregador de enorme impacto antes de morrer em Pádua em 1231 e ser canonizado no ano seguinte.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Idade Média
  • século XII
  • século XIII
  • século XV
  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • Renascimento

Temas

  • religião
  • Igreja Católica
  • movimentos religiosos
  • pobreza
  • pregação
  • ordens religiosas
  • franciscanismo
  • espiritualidade
  • heresia
  • conversão
  • expansão marítima
  • descobrimentos
  • urbanização
  • cultura
  • arte

Eventos

  • Cruzadas
  • Quinta Cruzada
  • Reconquista
  • queda de Córdoba
  • queda de Sevilha
  • descobrimentos portugueses
  • Concílios gerais

Guerras e conflitos

  • guerra entre Assis e Perugia
  • Cruzadas
  • Quinta Cruzada
  • Reconquista cristã

Livros recomendados

Livros citados

  • São Francisco de Assis - Jacques Le Goff
  • São Francisco de Assis - Chiara Frugoni
  • O Renascimento do Século XII - Charles Homer Haskins
  • O Tempo das Catedrais - George Duby
  • Divina Comédia - Dante Alighieri

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