Nº 18204 de janeiro de 202350:43efeméride
O nascimento do Expresso há 50 anos
O episódio marca os 50 anos da fundação do jornal Expresso, em janeiro de 1973, durante o Marcelismo. Rui Ramos e João Miguel Tavares analisam o contexto político da época, o equilíbrio precário de Marcelo Caetano entre ultras e liberais, e a progressiva erosão do regime. Discutem também a Vigília da Capela do Rato (dezembro de 1972) como sintoma do distanciamento dos católicos e da juventude face ao Estado Novo, num clima de contestação à guerra colonial.
Ideias principais
- O historiador deve resistir à tentação de interpretar acontecimentos em função do que veio depois, evitando atribuir aos atores históricos uma presciência que não tinham sobre o 25 de Abril.
- Marcelo Caetano tentou manter um equilíbrio impossível entre ultras salazaristas e liberais reformistas através da fórmula 'evolução na continuidade', consentindo na criação do Expresso e na organização dos liberais mesmo após o seu distanciamento.
- A ditadura portuguesa não era comparável às ditaduras totalitárias dos anos 30, mas assemelhava-se mais às ditaduras atuais que fazem eleições controladas e permitem oposição vigiada, sendo mais próxima da Rússia de Putin do que da União Soviética de Stalin.
- A Vigília da Capela do Rato revela o distanciamento decisivo dos católicos e de filhos das elites do regime face ao Estado Novo, bem como ligações embrionárias entre grupos católicos progressistas e a extrema-esquerda violenta das Brigadas Revolucionárias.
- A ditadura portuguesa só foi derrubada por um golpe militar, não por mobilização da sociedade civil, porque o regime era eficiente em isolar e neutralizar a oposição, impondo custos elevados a quem contestasse publicamente.
Resumo do episódio
O episódio 182 de *E o Resto é História*, o primeiro de 2023, é dedicado ao cinquentenário do jornal *Expresso*, fundado por Francisco Pinto Balsemão e chegado às bancas a 6 de janeiro de 1973. Rui Ramos e João Miguel Tavares não se interessam, porém, pela instituição que o jornal se tornou, mas pelo significado histórico do seu nascimento no contexto do marcelismo — e, a par disso, pela vigília da Capela do Rato, ocorrida poucos dias antes, em 30 de dezembro de 1972.
O ponto de partida metodológico é uma advertência do historiador: é tentador ler o *Expresso* e os acontecimentos de 1973 como prenúncios inevitáveis do 25 de Abril de 1974, mas fazê-lo seria atribuir aos atores da época uma presciência que não tinham. Rui Ramos insiste que a história não estava determinada e que a grandeza de muitas dessas ações reside precisamente no facto de terem sido feitas sem qualquer garantia de êxito.
Para enquadrar 1973, os apresentadores recuam a 1968, quando Marcelo Caetano sucedeu a Salazar. Caetano herdou um regime que precisava de ser simultaneamente tudo para todos: os "ultras" salazaristas esperavam continuidade, nomeadamente na defesa do ultramar; os católicos progressistas, os monárquicos e os chamados tecnocratas esperavam uma abertura gradual à Europa Ocidental. A fórmula da "evolução na continuidade" permitiu a Caetano atrair para as listas da União Nacional, em 1969, figuras como Francisco Sá Carneiro, Pinto Balsemão ou Miller Guerra — os futuros deputados da "ala liberal". Rui Ramos considera que este equilíbrio se vai desfazendo a partir das eleições presidenciais de 1972, em que Caetano tolerou a reeleição do almirante Américo Tomás, desgostando os generais que aspiravam à presidência e frustrando as esperanças liberais. A partir daí, ultras e liberais começam a distanciar-se do regime, embora Caetano continuasse a tentar jogar com os dois lados.
O *Expresso* surge neste contexto como um projeto consentido pela ditadura: Caetano deixou que Balsemão o fundasse, tal como havia deixado constituir a SEDES em 1970 ou tolerar o "encontro das franjinhas", em julho de 1973, onde os liberais se reuniram quase como embrião de um partido. O jornal enfrentou cortes severos da censura — Balsemão chegou a ponderar desistir —, mas o facto de ter sido autorizado pode ser lido como mais um movimento do jogo de equilíbrio de Caetano. Balsemão e os seus próximos acabariam por protagonizar, após o 25 de Abril, a construção do PPD, hoje PSD, constituindo a base da direita democrática portuguesa. Mas em 1973, sublinham os apresentadores, nada disso era previsível.
A segunda metade do episódio é dedicada à vigília da Capela do Rato. Um grupo de cristãos iniciou uma greve de fome e uma vigília de 48 horas para contestar a guerra colonial. A polícia invadiu a capela na noite de 31 de dezembro e prendeu cerca de cinquenta pessoas, incluindo padres, e o cardeal patriarca António Ribeiro deslocou-se pessoalmente à sede da PIDE para exigir a libertação do clero. Rui Ramos aponta quatro razões para o interesse histórico do episódio. Primeiro, ocorre dentro de uma instituição, a Igreja Católica, que havia sido pilar do Estado Novo, sinalizando o aprofundamento do afastamento dos católicos — processo que vinha pelo menos de 1958, com o conflito entre D. António Ferreira Gomes e Salazar. Segundo, envolve filhos de famílias ligadas ao regime, como Nuno Teutónio Pereira, sobrinho de um dos fundadores do Estado Novo, espelhando a vaga de contestação juvenil que atravessava todo o Ocidente. Terceiro, tem como tema central a guerra em África, que deixara de ser um consenso e se tornara numa questão divisiva, equivalente português da guerra do Vietname. Quarto, existia uma ligação, ignorada por muitos participantes, às Brigadas Revolucionárias de Isabel do Carmo e Carlos Antunes, num momento em que parte da esquerda europeia — das Brigadas Vermelhas ao IRA — abraçava a violência revolucionária.
Personagens
- Francisco Pinto Balsemão
- Marcelo Caetano
- Salazar
- Francisco Sá Carneiro
- Américo Tomás
- António de Spínola
- Causa da Riaga
- Humberto Delgado
- Joaquim Magalhães Mota
- João Pedro Miller Guerra
- Mota Amaral
- D. António Ferreira Gomes
- Paulo VI
- Padre Alberto Neto
- Cardeal António Ribeiro
- Nuno Teutónio Pereira
- Pedro Teutónio Pereira
- Norton de Matos
- Isabel do Carmo
- Carlos Antunes
- Luís Moita
- T.P.P. de Moura
Lugares
Épocas
- Estado Novo
- Marcelismo
- anos 60
- anos 70
- Primeira República
- anos 20
- anos 30
- anos 50
- Primeira Guerra Mundial
Temas
- ditadura
- censura
- imprensa
- guerra colonial
- descolonização
- oposição política
- Igreja Católica
- liberalismo
- ultramar
- juventude universitária
- extrema-esquerda
- violência política
Eventos
- Fundação do Expresso
- 25 de Abril de 1974
- Eleições presidenciais de 1972
- Vigília da Capela do Rato
- Cheias de 1967
- Eleições legislativas de 1969
- Encontro do Franjinhas
- Conselho Vaticano II
- Revolução de 25 de Abril
- 1º de Maio de 1974
- Revisão constitucional de 1971
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial
- Guerra de Angola
- Guerra do Vietname
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