Nº 19612 de abril de 202345:16efeméride
Os 50 anos do PS e um assassinato em Montechoro
Análise dos 50 anos da fundação do Partido Socialista Português em abril de 1973, em Bad Münstereifel, Alemanha. Rui Ramos explica como Mário Soares foi o principal impulsionador da criação do PS, contra resistências internas, aproveitando o apoio das socialdemocracias do Norte da Europa e antecipando o fim da ditadura. O episódio termina com o assassinato do palestiniano Issam Sartawi em Albufeira (1983), que levou à criação dos serviços secretos portugueses.
Ideias principais
- O Partido Socialista foi criação de Mário Soares, que em 1973 convenceu os seus apoiantes a fundar um partido apesar das resistências e do risco de penas mais pesadas sob a ditadura.
- Mário Soares distinguia-se na oposição por defender não apenas o fim da ditadura, mas também a ausência de represálias contra os salazaristas, visando uma transição democrática pacífica.
- O PS beneficiou decisivamente do apoio das socialdemocracias do Norte da Europa (Alemanha, Suécia, Inglaterra), que compensava a falta de ligação a sindicatos e permitiu uma postura mais atlanticista e pró-descolonização.
- O assassinato de Issam Sartawi em Albufeira em 1983, num congresso da Internacional Socialista, e o ataque à Embaixada turca expuseram as fragilidades da segurança portuguesa pós-PIDE.
- Os atentados terroristas de 1983, internos e importados, foram decisivos para a criação do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) em 1984, acabando com o tabu da segurança interna na democracia.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado a dois aniversários que se cruzam: os 50 anos da fundação do Partido Socialista português, ocorrida a 19 de abril de 1973, e os 40 anos do assassinato do dirigente palestiniano Issam Sartawi, em abril de 1983, num hotel do Algarve. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta simples — o PS é uma criação de Mário Soares, ou Soares é uma criação do PS? — para explorar as origens e o significado histórico do partido.
A resposta é clara para os apresentadores: foi Soares quem empurrou um grupo heterogéneo de opositores à ditadura a formalizar um partido político. Esse grupo incluía antigos republicanos com raízes na Primeira República, ex-militantes comunistas que tinham rompido com o PCP, católicos progressistas que se tinham reunido em torno da revista *Tempo e Modo*, e jovens influenciados pelo Maio de 68. O que os unia era a oposição ao salazarismo e a desconfiança perante o Partido Comunista. Havia resistências internas à criação de um partido: pertencer a um partido ilegal agravar as penas em caso de prisão pela PIDE, e muitos opositores não queriam quebrar a tradição de unidade de toda a oposição contra o regime. Soares, porém, percebia que essa unidade beneficiava sobretudo o PCP, o único partido com organização e financiamento externos, e quis criar uma força alternativa e autónoma.
A escolha da Alemanha para a fundação explica-se pelo apoio decisivo dos partidos social-democratas do norte da Europa — alemão, sueco e britânico — que, através das suas fundações, financiavam e apoiavam movimentos socialistas democráticos nos países do sul da Europa sob ditadura. Este apoio externo compensou a ausência de uma base sindical, uma vez que o PS era essencialmente um partido de intelectuais e da classe média. A ligação às social-democracias nórdicas moldou também o perfil do partido: pró-atlântico, favorável à descolonização rápida e comprometido com o pluralismo político, o que o distinguia tanto do PCP como do Partido Socialista francês.
Soares era, já antes de 1973, a figura mais conhecida da oposição portuguesa dentro e fora do país. A sua deportação para São Tomé e Príncipe em 1968, por ordem do governo de Salazar, projetou-o internacionalmente. Marcelo Caetano, quando herdou o poder, tinha Soares como o seu maior problema político na oposição. Nas eleições de 1969, Soares rompeu com a frente unitária liderada pelo PCP e apresentou a sua própria lista, afirmando-se como líder de uma corrente socialista independente. A intuição de fundar o PS em abril de 1973 revelou-se certeira: um ano depois, o 25 de Abril derrubou a ditadura, e nas eleições de abril de 1975 o PS foi o partido mais votado, com quase 38% dos votos, o único com implantação nacional tanto a norte como a sul.
A segunda parte do episódio aborda o assassinato de Issam Sartawi, médico, conselheiro moderado de Yasser Arafat e defensor de uma solução negociada com Israel, baleado em abril de 1983 no Hotel Montechoro, em Albufeira, durante um congresso da Internacional Socialista. O congresso decorria em Portugal porque a Austrália, país inicialmente previsto, recusou a entrada de representantes da OLP. O atentado foi reivindicado pela organização extremista de Abu Nidal, que se opunha a qualquer reconhecimento do direito à existência de Israel. Os apresentadores explicam o contexto das rivalidades internas do movimento palestiniano, agudizadas pela retirada da OLP do Líbano após a invasão israelita de 1982 e pelo precedente criado pela paz entre Israel e o Egito. O que chocou os portugueses foi a forma como o assassino disparou seis tiros à queima-roupa no hall do hotel, perante políticos europeus, e desapareceu a pé sem nunca ser identificado. Este episódio, conjugado com um ataque ao consulado turco em Lisboa meses depois, tornou evidente a inexistência de serviços de informações em Portugal — um vazio que se mantinha por receio de ser acusado de criar uma nova PIDE. Foi esse clima que conduziu, em 1984, à criação do SIRP e dos serviços de segurança e informações que Portugal até então não tinha.
Personagens
- Mário Soares
- António Macedo
- Manuel Tito de Moraes
- Francisco Salgado Zenha
- Mário Souto
- Meigo a Cardia
- António Alçada Batista
- João Bernardo da Costa
- Francisco Sousa Tavares
- Jaime Gama
- António Reis
- Humberto Delgado
- Salazar
- Marcelo Caetano
- Bispo do Porto
- Álvaro Cunhal
- François Mitterrand
- Isaac Rabin
- Issam Sartawi
- Yasser Arafat
- Abu Nidal
- Anwar Sadat
- João Paulo II
- Francisco Sá Carneiro
- Jean-Paul Sartre
- António Lobato
Lugares
Épocas
- Primeira República (1910-1926)
- Estado Novo
- anos 60
- Maio de 68
- 25 de Abril de 1974
- Revolução de 1974-1975
- Verão Quente de 1975
- anos 80
Temas
- partidos políticos
- democracia
- ditadura
- oposição política
- socialismo
- comunismo
- descolonização
- terrorismo
- diplomacia
- Guerra Colonial
- transição democrática
- relações internacionais
- serviços secretos
- conflito israelo-palestiniano
Eventos
- Fundação do Partido Socialista (19 de abril de 1973)
- 25 de Abril de 1974
- Eleições de 25 de Abril de 1975
- Assassinato de Issam Sartawi (10 de abril de 1983)
- Ataque à Embaixada da Turquia (27 de julho de 1983)
- Invasão israelita do Líbano (1982)
- Acordos de Oslo (1993)
- Bloco Central (1983-1985)
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial
- Conflito israelo-palestiniano
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