Nº 18021 de dezembro de 202242:26resposta a ouvintes
Porque é que a Argentina não tem jogadores negros?
Episódio dedicado a perguntas dos ouvintes, abordando temas como a composição racial da seleção argentina (relacionada com ausência de economia de plantação e imigração europeia massiva), a mudança de designação da Holanda para Países Baixos, a formação retangular de Portugal (limitada pelas rivalidades com Leão e Castela na Reconquista), a persistência do crioulo português em Malaca, e a conversão de Constantino ao cristianismo.
Ideias principais
- A Argentina tem uma população maioritariamente branca (80-95% de descendência europeia) porque não teve economia de plantação baseada em escravatura africana, ao contrário do Brasil, e recebeu imigração massiva de italianos e espanhóis nos séculos XIX-XX.
- A mudança de Holanda para Países Baixos em 2020 foi um pedido governamental para evitar o sinédoque (usar uma parte pelo todo), mas Portugal tem tradição histórica de usar nomes próprios para países estrangeiros que diferem das designações locais, como Alemanha (Deutschland) ou Japão (Nippon).
- Portugal não se expandiu para leste ou norte durante a Reconquista porque os reis de Leão e Castela bloquearam essas tentativas, especialmente após a derrota de D. Afonso Henriques em Badajoz (1169), consolidando as fronteiras aproximadamente retangulares atuais.
- O crioulo português de Malaca sobreviveu mais de 500 anos (desde 1511) porque o português foi língua franca do comércio asiático nos séculos XVI-XVII, e a comunidade cristã local manteve identidade portuguesa através da religião católica, mesmo sob domínio holandês e britânico.
- A conversão de Constantino ao cristianismo em 313 permanece controversa entre historiadores: alguns veem-na como estratégia política para unir o império fragmentado, outros como conversão genuína influenciada pela mãe cristã, sendo difícil distinguir entre as interpretações devido às fontes cristãs posteriores.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História*, gravado às portas do Natal, é inteiramente dedicado a responder a perguntas enviadas pelos ouvintes. Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam quatro questões distintas, todas com raízes históricas, inspiradas em grande parte pelo Mundial de Futebol do Qatar.
A primeira pergunta parte de uma observação simples: por que razão a seleção argentina parece não ter jogadores negros? Rui Ramos explica que há duas razões históricas estruturais. Por um lado, ao contrário do México ou do Peru, a Argentina tinha à chegada dos colonizadores europeus uma população indígena relativamente reduzida. Por outro, e mais decisivo, a economia argentina nunca assentou nas culturas de plantação — açúcar, café, algodão — que noutras regiões das Américas exigiram uma importação massiva de mão-de-obra escrava africana. Sem esse modelo económico, não houve o mesmo influxo de população africana que marcou o Brasil ou o Caribe. A Argentina foi, pelo contrário, um grande destino de imigração europeia, sobretudo italiana, tornando-se o segundo país das Américas a receber mais europeus depois dos Estados Unidos. Estima-se que entre 80 e 95 por cento da população argentina descenda exclusivamente de europeus.
A segunda questão prende-se com a mudança de designação da Holanda para Países Baixos. Os apresentadores esclarecem que se trata de uma decisão do próprio governo neerlandês, em vigor desde 2020, para evitar que o nome de duas províncias — ainda que as mais populosas e influentes — represente o país inteiro. Rui Ramos recua ao século XVI para explicar que as Províncias Unidas, lideradas pela Holanda, se revoltaram contra Filipe II de Espanha em 1581, tornando-se uma potência naval de dimensão surpreendente dado o seu tamanho. Os portugueses, que mantiveram com essa república uma relação ambivalente — rivais no ultramar, parceiros comerciais na Europa —, sempre a designaram por Holanda, nome que ficou enraizado na língua. O episódio aproveita para um excurso mais amplo sobre a forma como os nomes de países se fixam historicamente: a Alemanha chama-se Deutschland em alemão mas é conhecida noutras línguas por designações de origem romana ou franca; o Japão deve o seu nome internacional a uma designação chinesa divulgada pelos portugueses vindos da Malásia; e a China é igualmente um nome indiano propagado pelos portugueses. Ao contrário destes casos, países como o Irão, o Sri Lanka ou o Burkina Faso optaram por mudar oficialmente de nome após a descolonização, para se distanciarem da herança europeia.
A terceira pergunta interroga a forma rectangular do território português: por que razão Portugal cresceu a direito para sul e não se expandiu para leste ou para norte? A resposta, segundo Rui Ramos, é sobretudo geopolítica. Dom Afonso Henriques tentou expandir-se noutras direcções — ocupou territórios da Galiza e chegou a Salamanca —, mas foi travado pelos reis de Leão e Castela. A derrota de Badajoz em 1169, onde foi capturado por Fernando II de Leão, obrigou-o a recuar e a ceder territórios a leste. Mais tarde, a conquista do Algarve em 1249 também gerou contestação castelhana, uma vez que Castela se considerava protetora de reinos muçulmanos naquela zona. O rectângulo não foi, portanto, um destino geográfico inevitável, mas o resultado de sucessivos equilíbrios de poder e negociações entre reinos cristãos peninsulares.
A quarta questão aborda a surpreendente sobrevivência do crioulo de origem portuguesa em Malaca, na Malásia, falado hoje por apenas algumas dezenas de pessoas. Rui Ramos explica que o português chegou a funcionar como língua franca do comércio asiático no século XVI e XVII, e que a missionação católica criou comunidades mestiças que adoptaram nomes, língua e identidade portuguesas. Mesmo após a conquista holandesa em 1641, estas comunidades mantiveram a sua identidade — primeiro como colaboradores dos britânicos, depois como forma de distinção face à herança colonial inglesa após a independência da Malásia.
Personagens
- Jaime Figueiredo
- Daniel Nascimento
- Afonso Henriques
- Afonso VI de Leão
- Afonso VII de Leão e Castela
- Fernando II de Leão
- António Vieira
- Afonso III
- João I
- Afonso de Albuquerque
- Vasco da Gama
- Diocleciano
- Constantino
- Filipe II de Espanha
- Diogo Carrasco
- José Pedro Escaleira
- Carlos Cardoso
Lugares
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XIX
- século XX
- século XII
- século IV depois de Cristo
- Reconquista
- colonização europeia
- descolonização
Temas
- colonialismo
- escravatura
- imigração
- economia de plantação
- religião
- catolicismo
- protestantismo
- islamismo
- missionação
- comércio marítimo
- expansão portuguesa
- fronteiras
- identidade nacional
- língua
- crioulização
- conversão religiosa
Eventos
- Mundial do Catar
- Conquista de Malaca
- Conquista de Ceuta
- Édito de Milão
- Concílio de Niceia
- Batalha de Badajoz
Guerras e conflitos
- Reconquista
- guerra com Castela
- perseguição de Diocleciano
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