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Nº 9321 de abril de 202154:14resposta a ouvintes

Porque é que as Canárias não são portuguesas?

O episódio responde a duas questões de ouvintes: porque as Canárias não são portuguesas e o papel de portugueses na independência grega. Explica-se que as Canárias foram cedidas a Castela no Tratado de Alcáçovas (1479) em troca do exclusivo português no Atlântico Sul e comércio africano. A segunda parte analisa a criação da Grécia moderna como invenção do século XIX, envolvendo elites helenistas, potências europeias e mercenários como o português António de Almeida.

Ideias principais

  1. As Canárias foram atribuídas à Castela pelo Papa no século XIV, mas Portugal tentou várias vezes ocupá-las nos séculos XIV e XV, tendo inclusive o Infante Dom Henrique comprado a ilha de Lanzarote em 1448.
  2. O Tratado de Alcáçovas (1479) representou a primeira partilha do Atlântico: Portugal cedeu as Canárias mas garantiu o exclusivo de tudo a sul delas, incluindo o lucrativo comércio do ouro da Guiné, um negócio estrategicamente superior.
  3. A Grécia moderna foi literalmente inventada no século XIX por elites helenistas que criaram uma identidade nacional a partir de comunidades dispersas que falavam grego e eram cristãs ortodoxas, mas que nunca tinham formado um Estado unificado.
  4. A Guerra da Independência Grega (1821) teve origem na infiltração russa e foi sustentada por senhores da guerra locais (kleptos) em territórios montanhosos onde a autoridade otomana era praticamente inexistente, só triunfando pela intervenção das potências europeias.
  5. A desagregação do Império Otomano iniciada com a independência grega gerou conflitos que perduram até hoje no Médio Oriente, resultado da imposição do modelo de Estado-nação europeu sobre uma região historicamente organizada em impérios multiétnicos e multirreligiosos.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda duas questões colocadas por ouvintes: a primeira, mais breve, pergunta por que razão as Ilhas Canárias não são portuguesas; a segunda, mais desenvolvida, explora as origens da independência grega e a participação de um militar português nessa guerra.

Quanto às Canárias, Rui Ramos explica que o equívoco habitual consiste em associar aquelas ilhas à época das descobertas do século XV, quando na verdade a sua atribuição a Castela tem raízes mais antigas. Conhecidas desde a Antiguidade romana e habitadas pelos Guanches, um povo de nível neolítico provavelmente aparentado com os berberes norte-africanos, as ilhas despertaram o interesse europeu na Idade Média. Foram marinheiros maiorquinos, genoveses e portugueses quem primeiro as explorou. Ainda em meados do século XIV, o Papa encarregou o rei de Aragão da evangelização das ilhas, e já nessa época Portugal reivindicava prioridade sobre elas, como o rei Afonso IV deixou entender numa carta ao Papa em 1345. No século XV, o interesse português intensificou-se, porque as Canárias eram uma base estratégica útil tanto para as campanhas em Marrocos como para a navegação ao longo da costa africana. Entre 1424 e 1434 saíram de Lisboa expedições de grande dimensão, mas os portugueses depararam com dois obstáculos: a resistência dos nativos e a oposição castelhana. Em 1448, o infante D. Henrique chegou mesmo a comprar a ilha de Lanzarote a um nobre castelhano, com aprovação papal, mas Castela rejeitou a transação. A questão ficou definitivamente resolvida pelo Tratado de Alcáçovas de 1479, celebrado após uma guerra entre Portugal e Castela pela sucessão do trono castelhano. Portugal renunciou às Canárias e reconheceu os direitos de Isabel I, mas em contrapartida Castela reconheceu a soberania portuguesa sobre os Açores, a Madeira, Cabo Verde e todas as ilhas que viessem a ser descobertas a sul das Canárias no Atlântico, além do exclusivo do comércio do ouro da Guiné. Tratou-se, na leitura dos apresentadores, de um excelente negócio para Portugal — sobretudo porque a América ainda não tinha sido descoberta —, que explica por que motivo os portugueses acabaram por abdicar das Canárias sem grande resistência.

A segunda parte do episódio é dedicada à guerra da independência grega de 1821, cujo bicentenário serve de mote. Rui Ramos começa por sublinhar um ponto fundamental: a Grécia nunca existiu como Estado independente antes do século XIX. O que havia no Império Otomano era um conjunto disperso de comunidades cristãs ortodoxas de língua grega, concentradas sobretudo em Constantinopla, na Ásia Menor e no Egito, e não nos Balcãs. A sua identidade era romana, no sentido do Império Bizantino, e não grega no sentido clássico. Foi uma elite ilustrada, influenciada pelo iluminismo e pelo romantismo, que no final do século XVIII e início do XIX começou a construir a ideia de uma nação grega, associando estas comunidades à herança da Antiguidade clássica. A independência grega resultou de uma conjunção de fatores: a decadência do Império Otomano, que as grandes potências europeias — Rússia, Grã-Bretanha, França e Áustria — disputavam entre si sem querer que nenhuma prevalecesse; a infiltração russa através de agentes gregos ao serviço do czar; e a popularidade da causa entre os intelectuais europeus, que viam na revolta grega o renascimento da Grécia de Sócrates e de Platão. Na prática, porém, quem combateu no terreno foram os chamados kleptos, senhores da guerra locais que já operavam à margem do poder otomano nas zonas montanhosas e que aderiram à bandeira da independência para consolidar a sua autonomia. A batalha naval de Navarino em 1827, em que esquadras inglesa, francesa e russa destruíram a frota otomana, selou a independência. Em 1832, as potências impuseram um rei alemão, Otão da Baviera, para arbitrar as fações gregas em conflito permanente. Atenas, uma aldeia de quatrocentas casas junto às ruínas da Acrópole, tornou-se capital por decisão desse monarca.

É neste contexto que entra António de Almeida, militar português de Elvas que combateu nas guerras peninsulares e que, em 1825, partiu para a Grécia, provavelmente por falta de ocupação após as guerras napoleónicas e por entusiasmo com a causa helénica. Atingiu o posto de coronel, organizou regimentos de cavalaria e foi comandante de Nafplion, a primeira capital grega. Acabou por fixar residência na Grécia, ter descendência luso-grega e o seu retrato ainda hoje está exposto no Museu Nacional de Atenas. O episódio termina com uma reflexão mais ampla: a guerra da independência grega de 1821 foi o primeiro ato de um longo processo de desagregação do Império Otomano, ainda inconcluso, que esteve na origem dos conflitos do Médio Oriente até à atualidade.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIV
  • século XV
  • Idade Média
  • Antiguidade Romana
  • Neolítico
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • guerras napoleónicas
  • Primeira Guerra Mundial
  • guerras peninsulares
  • Império Bizantino
  • Idade da Pedra

Temas

  • descobrimentos
  • expansão marítima
  • colonização
  • diplomacia
  • tratados internacionais
  • comércio
  • evangelização
  • independência nacional
  • romantismo
  • iluminismo
  • nacionalismo
  • imperialismo
  • guerra
  • religião
  • genocídio
  • limpeza étnica
  • identidade nacional
  • mercenários

Eventos

  • Tratado de Alcáçovas
  • Tratado de Tordesilhas
  • Guerra da Independência da Grécia
  • Batalha de Navarino
  • Revolução Francesa
  • Conquista de Ceuta

Guerras e conflitos

  • Guerra entre Portugal e Castela (1474-1479)
  • Guerra da Independência da Grécia
  • guerras napoleónicas
  • guerras peninsulares
  • Primeira Guerra Mundial
  • guerra civil portuguesa (1832-1834)
  • guerra greco-turca (1921-1922)

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