Nº 33325 de novembro de 20251h03análise histórica
Três ideias erradas sobre o 25 de Novembro
Análise dos três principais erros interpretativos sobre o 25 de Novembro de 1975, cinquenta anos depois. Rui Ramos desmonta teorias conspirativas que atribuem controlo total a Álvaro Cunhal, explica por que nem tudo mudou nem tudo ficou igual, e demonstra como o evento foi marcado por incerteza, risco real de guerra civil e improvisação, numa correlação de forças militares que definiu a transição democrática portuguesa.
Ideias principais
- O 25 de Novembro não foi uma conspiração pré-programada por Cunhal ou potências estrangeiras, mas um confronto incerto entre facções militares onde ninguém controlava totalmente a situação nem sabia o desfecho.
- Existia risco real de guerra civil, com civis armados e ex-combatentes da Guerra Colonial mobilizados de ambos os lados, tropas divididas e planos militares concretos de tomada de poder ou resistência regional.
- A vitória dos moderados deveu-se a factores operacionais concretos: transferência prévia de aviação para o norte, disciplina superior do Regimento de Comandos, e fraqueza das unidades do COPCON minadas pela contestação hierárquica que elas próprias promoveram.
- O 25 de Novembro não mudou tudo imediatamente - mantiveram-se nacionalizações, reforma agrária e Conselho da Revolução - mas eliminou o factor decisivo: a esquerda militar que permitira a revolução de 1974-75 contra a vontade eleitoral maioritária.
- O evento possibilitou uma transição democrática por via eleitoral e parlamentar, comparável à transição espanhola pós-Franco, que culminou nas revisões constitucionais de 1982 e 1989 e na consolidação da democracia liberal.
Resumo do episódio
Neste episódio de *E o Resto é História*, transmitido precisamente no quinquagésimo aniversário do 25 de Novembro de 1975, Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se a corrigir três ideias erradas que, meio século depois, continuam a circular nas interpretações daquele momento decisivo da história portuguesa recente. O objectivo não é recontar os acontecimentos passo a passo, mas desafiar os equívocos mais persistentes sobre o seu significado.
O primeiro e mais extensamente desenvolvido erro é o que Rui Ramos designa como o campo das teorias da conspiração. Segundo estas leituras, tudo o que aconteceu no 25 de Novembro teria sido previamente calculado e combinado por actores poderosos a actuar nos bastidores, com Álvaro Cunhal a surgir, nas versões mais extremas, como um mestre de xadrez que teria orquestrado a entrega de Angola à União Soviética e depois armado uma rasteira à extrema-esquerda portuguesa, entendendo-se secretamente com os moderados do Grupo dos Nove. Rui Ramos desmonta esta visão com três razões que decorrem da própria situação histórica. Em primeiro lugar, nenhum dos actores sabia o que iria acontecer: todos queriam evitar uma guerra civil, mas todos estavam dispostos a ir até aos limites para não perder. Em segundo lugar, os blocos em confronto não eram dois campos homogéneos e hierarquizados, mas um mosaico de facções militares e políticas — gonçalvistas, hotelistas, o Grupo dos Nove, espinolistas, a chamada direita militar — cujos alinhamentos eram instáveis e cujas lealdades mútuas nunca foram garantidas. Em terceiro lugar, além das tropas com cadeias de comando já minadas, havia centenas de civis armados com experiência de combate em África, à porta dos quartéis a pedir armas, prontos para o confronto, e esse elemento tornava a situação genuinamente imprevisível. O 25 de Novembro foi, portanto, uma demonstração de força de ambos os lados — os paraquedistas a ocupar bases aéreas e infraestruturas em Lisboa, os Comandos da Amadora e a Força Aérea a responder — em que ninguém tinha o controlo total da situação e em que a correlação de forças só ficou clara no próprio dia, obrigando o PCP e os gonçalvistas a recuar perante a evidência de que iriam perder um confronto directo.
O segundo erro, mais breve, é o de quem considera que o 25 de Novembro não mudou nada de substancial. É verdade, reconhece Rui Ramos, que o Conselho da Revolução continuou, que as nacionalizações e a reforma agrária se mantiveram, e que a Constituição de 1976 consagrou ainda o rumo ao socialismo. Mas o que mudou foi decisivo: acabou a esquerda militar, ou seja, a projecção do PCP e da extrema-esquerda nas Forças Armadas que lhes permitia exercer no país uma influência muito superior à que tinham eleitoralmente — como as próprias eleições de Abril de 1975 tinham demonstrado, com o PCP e a extrema-esquerda a ficarem em minoria.
O terceiro erro é o inverso: pensar que o 25 de Novembro mudou tudo de imediato. A democratização foi um processo lento, feito de revisões constitucionais em 1982 e 1989, de vitórias eleitorais que foram gradualmente transformando o enquadramento institucional. Mas foi precisamente o fim da esquerda militar que tornou esse processo possível, permitindo uma transição para a democracia liberal comparável, na sua lógica, à transição espanhola do franquismo — também ela demorada e cheia de heranças incómodas. O 25 de Novembro não foi o fim da revolução, mas foi o momento que abriu caminho para que a política portuguesa passasse a ser decidida por votos e não por quem controlava os quartéis de Lisboa.
Personagens
- Álvaro Cunhal
- Vasco Gonçalves
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Melo Antunes
- Vasco Lourenço
- Vitor Alves
- Mário Soares
- Pinheiro de Azevedo
- Rosa Coutinho
- Jaime Neves
- Ramalho Eanes
- Pires Veloso
- Franco Charais
- Pezarat Correia
- Salgueiro Maia
- Costa Gomes
- Francisco Sá Carneiro
- Cavaco Silva
- Kissinger
- Brezhnev
- Francisco Franco
Lugares
- Portugal
- Angola
- União Soviética
- Estados Unidos
- Espanha
- Europa Oriental
Épocas
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- PREC (1974-1975)
- Transição democrática portuguesa
- Guerra Colonial
Temas
- revolução
- golpe de Estado
- democracia
- comunismo
- militar
- guerra civil
- transição política
- nacionalizações
- reforma agrária
Eventos
- 25 de Novembro de 1975
- 25 de Abril de 1974
- Independência de Angola
- Eleições para a Assembleia Constituinte de 1975
- Constituição de 1976
- Revisões constitucionais de 1982
- Revisões constitucionais de 1989
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial
- Guerra civil de Angola
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